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APASE
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Associação de Pais e Mães Separados |
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Jornal O GLOBO |
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“Jornal da Família” |
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Edição de 29/08/1999 |
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A nova produção independente |
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Repórter Márcia Cezimbra |
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Psicanalistas discutem última geração de filhos
criados distantes do pai
Nos anos 70,
a produção independente era quase um ato de rebeldia de mães que queriam ter
filhos sem pai em protesto contra a sociedade machista. A atriz Scarlet Moon,
por exemplo, tinha decidido criar sozinha os seus três filhos - Gabriela, hoje
com 28 anos; Cristóvão, de 23; e Teodora, de 22. Mas, à 20 anos, quando ela
se casou com o músico Lulu Santos, as três "produções
independentes" ganharam um pai, segundo Scarlet, maravilhoso em múltiplos
sentidos.
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Eu nunca poderia imaginar, mas os três são filhos de fato do Lulu. A vida
ensinou-me que a mulher tem uma relação com o filho desde quando ele esta
dentro de sua barriga, mas com o homem é diferente. É o amor do homem pela
mulher que faz com que ele ame os filhos. Eu tive esta sorte, este privilégio,
de ter tido um homem que me amou e que é um pai deslumbrante em seus toques, na
educação, na generosidade. Eles se adoram - diz Scarlet.
Hoje, a produção
independente não é mais um ato rebelde, mas uma nova realidade social. São
filhos de mães adolescentes que ainda moram com os pais, de mulheres que querem
apenas um filho e não um casamento, de uma multidão de descasadas que têm a
posse legal da guarda das crianças, e até de casais homossexuais. Quem são
estas crianças criadas á distância da figura paterna? As psicanalistas
americanas Leif Terdal e Patrícia Kennedy, autoras de "Produção
independente - Criando meninos sem a presença do pai" (Editora Rosa dos
Tempos) dizem que, se estas crianças não tiverem um pai substituto, como os
filhos de Scarlet e Lulu, terão vazios afetivos ao longo de toda a vida.
Depois de uma longa pesquisa com filhos de pais
divorciados nos Estados Unidos, as autoras constataram que metade das crianças
nascidas após 1975 vive longe do pai e, nestes casos, os meninos apresentaram
mais transtornos do que as meninas: baixo rendimento escolar, agressividade com
a família e com os colegas, uso de drogas, depressão e angústia. Já a psicanalista brasileira Lulli Milman, coordenadora da clínica social da UERJ e autora de "Cresceram!!! - Um guia para pais de adolescentes" (Editora Nova Fronteira), diz que mais importante do que a presença física do pai é o que ele significa para a mãe:
- A mulher
que respeita o homem, independentemente de ele estar ou não ao seu lado, esta
criando uma pessoa melhor. A criança nasce de um homem e de uma mulher. Se a
mulher desvaloriza o homem, mesmo casada com ele, esta criança sofrerá de miséria
psíquica, porque parte de sua identidade foi aniquilada pela mãe, não importa
onde esteja o pai.
Como ajudar as crianças? RESPEITO: O respeito pela figura paterna é fundamental para a integridade da criança. Quando a mãe denigre o pai por qualquer motivo, a criança cresce com uma identidade mutilada.
TERAPIA:
A mãe que impede os filhos de verem o pai, seja por ciúme, ressentimento ou
vingança, precisa de terapia. Estes filhos estão órfãos de pai e de mãe,
que, em vez de atormentá-los com seus rancores, deveria protegê-los e
criar-lhes condições afetivas favoráveis.
SUBSTITUTO: O
pai biológico pode estar ausente por diferentes motivos - morte, viagens, doença
ou perda total de contato - mas a criança pode encontrar figuras paternas
substitutas no avô, no tio, no irmão mais velho, no professor ou no padrasto.
ADOÇÃO: As
psicanalistas americanas Leif Terdal e Patrícia Kennedy dizem que é melhor
para a criança ser adotada por uma família receptiva do que viver com a mãe
nos casos em que esta, depois de ter recebido substancial ajuda e intervenção
do pai, não tem instrução nem aptidões de trabalho para criar os filhos em
ambiente adequado. Elas sugerem que crianças nascidas de pais com péssimo
relacionamento também vivem melhor em lares adotivos.
A NOVA PRODUÇÃO INDEPENDENTE
Avô, irmão
mais velho, padrasto, tio, padrinho e namorado da mãe ajudam a substituir a
figura paterna
O
psicanalista Sérgio Nick, autor do ensaio "Dano moral e a falta do pai -
Algumas considerações sobre a produção independente", fez uma pesquisa
sobre filhos de produções independentes e abandonados pelo pai e constatou que
os riscos e os danos são diferentes em cada caso:
- O maior
risco para os filhos de produção independente, comprovado estatisticamente, é
o perigo da excessiva fusão com a mãe. O que impera nesta relação é a
convicção de que mãe e filho bastam-se um para o outro. A mãe acha que poderá
suprir todas as necessidades do filho e dela mesma, mas vai gerar distúrbios
emocionais na criança.
Quando a mãe exerce também a
função de pai
Já os
filhos abandonados total ou parcialmente pelo pai têm dificuldade de lidar com
sentimentos gerados por este abandono, o que vai trazer conseqüências imprevisíveis:
- Estas
crianças apresentam um núcleo depressivo que pode levá-las a sentimentos de
baixa auto-estima, de não serem merecedoras de amor. E leva também a
sentimentos de ódio e de inveja de difícil manejo. A mãe mais madura
emocionalmente ajuda os filhos a superar a ausência do pai e evita que as
fantasias de abandono predominem.
Nas duas
situações, Sérgio Nick acha possível que a mãe exerça a função de mãe e
pai, mas é preciso que ela deixe claro para o seu filho que ela não pode ser
tudo para ele e que não negue a identidade, a presença e a participação do
pai na vida da criança.
- A mãe pode
até exercer as funções materna e paterna, mas isto não quer dizer que a
figura masculina não seja imprescindível na vida da criança. Caso não seja
possível o pai estar presente na vida da criança, a mãe pode tentar buscar no
tio, no avô, no namorado ou no amante esta aproximação, que é essencial para
o desenvolvimento psíquico-emocional-afetivo da criança. A guarda
compartilhada de filhos de divorciados, pela qual eu tanto luto, é uma arma
contra esse drama na vida de uma criança: a falta do pai. A presença de avós,
padrinhos, madrinhas, tios, tias é crucial para compensar esta falta também. A
criança precisa saber e sentir que é aceita, querida, amada, que de alguma
forma tem raízes, familiar e afetiva - disse Nick.
Sérgio Nick
lembra que o exercício da paternidade é garantido por lei. O Estatuto da Criança
e do Adolescente estabelece o direito á paternidade e a lei sobre a investigação
da paternidade da ás mães o direito de exigir que os pais assumam a
paternidade de seus filhos justamente por entender que é crucial para a criança
conhecer sua filiação:
- Saber quem
é o pai, conhecê-lo e conviver com ele é parte integrante e fundamental da
construção de sua identidade pessoal.
Crianças com problemas sentem a
falta do pai
Já uma
pesquisa feita pela psicóloga Vera Resende com crianças e adolescentes do
Programa de Atenção á Infância e á Adolescência da Universidade Estadual
Paulista, de Bauru, constata que a maioria das crianças atendidas com problemas
de agressividade, indisciplina, baixo rendimento escolar e apatia se ressente da
ausência do pai.
- Constatamos
que 80% das crianças não tinham problemas, mas apenas dificuldades na família.
Orientamos os pais a participarem mais da vida dos filhos e ás mães que
compreendam a importância da figura paterna - disse.
Sociedade contemporânea
desvaloriza a função do pai
Psicanalista
diz como a figura paterna deve ser sempre preservada pela mãe
Especialista em crianças, a psicanalista Geny
Talberg, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, diz que a
ausência do pai na vida de uma criança talvez não possa jamais ser substituída,
porque o essencial no desenvolvimento de uma criança é que tenha alguém mais
seguro do que ela:
- Este é um
tema muito complexo. Muitas variantes podem influenciar o desenvolvimento de uma
criança que vive nesta situação. A mãe nunca poderá suprir totalmente a ausência
do pai, mas pode compensá-la criando dentro de casa uma convivência do filho
com avós, tios, namorados ou padrastos, em ambiente tranqüilo que possa
transmitir segurança emocional á criança.
Para Geny
Talberg, o mais adequado é que a mãe possa ser capaz de enfrentar junto com a
criança as dificuldades que poderão surgir a partir da ausência do pai.
- O
fundamental, independentemente da situação em que foi gerada a criança, seja
por uma mãe solteira, por ter optado por ter o filho sozinha, ou ainda por
motivo de separação, é que a mãe não
deve agredir a figura paterna - explica a psicanalista.
Geny Talberg
diz que atualmente a função da figura paterna nem sempre tem sido valorizada.
A psicanalista Lulli Milman concorda e acrescenta que, para a mulher de hoje, o
homem e o casamento não são mais essenciais para que ela exerça a
maternidade.
- Ter um
filho hoje não significa mais ter necessariamente um marido e um casamento. São
dois projetos distintos - diz Lulli Milman.
Na opinião
de Geny Talberg, no entanto, o pai é fundamental para ajudar a estruturar um
ambiente familiar onde haja lugar para sofrimento, tristeza, decepções, dúvidas,
medos, anseios, amor e companheirismo: - Uma relação entre mãe e filho que opta pela exclusividade entre ambos traz, entre as mais sérias conseqüências, a tendência da criança de se sentir com a responsabilidade de compensar a carência afetiva da mãe. E os filhos não podem tornar-se companheiros dos pais. Eventualmente, assumindo este papel, haverá danos para o seu desenvolvimento emocional. Jornal: O GLOBO / Autor: Márcia Cezimbra Editoria: Jornal da Família / Tamanho: 1554 palavras
Caderno:
Jornal da Família
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