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APASE
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Associação de Pais e Mães Separados |
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QUANDO OS FILHOS FICAM COM O PAI |
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Eliana Riberti Nazareth[1] |
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Em “Um amor conquistado – o mito do amor materno”, Elizabeth Badinter[2] nos mostra de maneira muito clara que o amor materno inato é um mito. Não é “dado”, mas sim, como deixa antever o título da obra, “conquistado”. Porém, acreditamos em nosso imaginário que tal amor seja algo natural. Algo que nasce com as mulheres, verdadeiro apanágio feminino. Fala-se até de “instinto materno”. E coitadas daquelas que não o têm! Sofrem um certo preconceito, pois falta-lhes qualquer coisa de fundamental!
Essa
convicção se dá basicamente por duas razões.
A
primeira é devido à imposição feita pela cultura, responsável pelo
desenvolvimento do modelo de amor materno conhecido atualmente e com o qual
temos convivido desde o século XIX.
A
segunda, em uma relação de causalidade circular com a anterior, deve-se à
necessidade de se idealizar a relação mãe-filho, idealização que obedece ao
desejo de união perfeita, fantasia de completude que protege o indivíduo das
ansiedades e medos mais primitivos de separação, abandono e perda.
Desse
modo, a mãe é concebida como alguém puro a quem são atribuídos apenas
sentimentos nobres de acolhimento, abrigo e continência no que diz respeito a
sua cria. A criança, é vista como um ser que se satisfaz total e plenamente
com uma relação fusional com ela satisfazendo-a do mesmo modo. (Um exemplo do
valor dado à tão sonhada relação, são as expressões artísticas cristãs
que retratam sempre a Madona olhando o Menino Jesus com enlevo e este, por sua
vez, retribuindo com adoração). O caráter ambivalente e contraditório desse modelo de vínculo que reúne sentimentos de aprisionamento e possibilidade de individuação, será enfrentado só bem mais tarde na vida, com a entrada do terceiro na relação diádica composta por mãe e filho, cujo primeiro representante e protótipo para os demais é o pai.
Contudo,
o amor materno como o conhecemos atualmente, é aquisição bem recente. Os
estudos trazidos por Badinter nos fazem ver que nem sempre foi assim. A mãe
tinha mais uma função biológica que afetiva, ficando as crianças ao cargo de
amas-de-leite que lhes garantiam a sobrevivência física, o suporte emocional e
humanização. A crença do amor materno instintivo, imaculado e incondicional terá importantes conseqüências no exercício da convivência entre pais e filhos, na visão de guarda e na dificuldade que se observa quando se apresentam modificações nos parâmetros de convívio estabelecidos como “naturais e corretos”, como veremos mais adiante. Todo afeto para se dar precisa de proximidade física e emocional. Deve ser conquistado com e na convivência. É na intimidade das relações construídas no cotidiano que germina, cresce e frutifica. E o amor materno não foge a essa regra. Não é decorrente, como se crê, da ação de algum instinto. É afeição que, como qualquer outra, necessita de reciprocidade desenvolvida em um relacionamento estreito e contínuo que assegure confiança e familiaridade aos que dele se nutrem. Se o amor não é dado, não está garantido de antemão, não é fruto de geração espontânea, mas ao contrário, demanda empenho, cuidado e investimento dos que integram uma relação amorosa qualquer que seja ela – entre mãe e filho, entre amantes, ou entre amigos –, por qual motivo vê-se ainda com tantas reservas a atribuição da guarda dos filhos ao pai quando de uma separação conjugal? Talvez devido ao preconceito, medo de contrariar a prática usual, ou mesmo desinformação... As noções que temos de como as funções e papéis sociais devam ser exercidos é resultado do que Pichón-Rivière (1985) denominou de representação da norma social designada. “[...] um imaginário social dado por idéias, imagens e estereótipos, isto é, representações simbólicas compartilhadas [...] com certa homogeneidade pelas pessoas da época histórica de que se trata”.[3]
Devido
a ação desses núcleos de significados imaginários que funcionam como lentes
ou crivos de decodificação de comportamentos, alterar a visão de mundo e dos
valores sobre os quais assentam as experiências, demanda um tremendo esforço e
provoca desconforto não só naqueles que ousam mudar, mas também nos que os
cercam.
Esse
legado inconsciente e o mito do amor materno são em grande parte responsáveis
por um lado, pelas mães que “deixam” a guarda para o pai, ou perdem a
guarda sentirem-se, ou serem vistas como mães incompetentes, abandonantes e más
e, por outro, os pais que reclamam a guarda, ou a “tiram” das mães
sentirem-se, ou serem vistos como indivíduos cruéis e desumanos. Ora, os atributos de afeto antes referidos não são prerrogativas do amor materno. Não estão adstritos a ele. O amor paterno também é semeado, alimentado e aprendido no trato diário com os filhos. Nas oscilações da convivência, em meio à ambivalência, é construído e sustentado. Nada difere em possibilidade, da magnitude do amor materno. Considerar que ambos os “amores” sejam conquistados, portanto legítimos e de igual qualidade não equivale a dizer que não haja diferenças entre eles. Afeto e função maternos e paternos têm suas especificidades por mais difícil que seja estabelecer distinções atualmente. O que a criança precisa é de quem a olhe e veja como alguém de importância emocional, para nessa mirada poder reconhecer-se como alguém merecedor de amor e “amável”. A cultura tem protegido as mulheres dando-lhes apoio, guarnecendo-as de modelos e ensinando-as a ser mães. O mesmo não tem se dado em relação ao pai. Abastecê-lo de modelos de paternidade próxima e emocionalmente responsável é desafio para todos nós, homens e mulheres. [1] Psicóloga, psicanalista, mediadora e terapeuta de família e de casal. Coordenadora do Núcleo de Mediação do IBDFAM/SP, membro do Fórum Mundial de Mediação e da International Society of Family Law. [2] Badinter, E., Um amor conquistado – o mito do amor materno, Nova Fronteira, 1998. [3] Martínez, N. Z., O papel da paternidade e a padrectomia pós – divórcio, Dissertação de mestrado, Universidad del Bio-Bio, Chile, 1999.
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