"Ou me dás
150 euros ou eu deixo de gostar de ti e tiro-te
para sempre da minha lista de amigos no
telemóvel!" Dito assim, a cru, o repto de Inês,
de seis anos, para o pai, divorciado da sua mãe,
poderia parecer apenas um capricho de menina
mimada. Mas por detrás da chantagem está um
passado repetido de manipulação infligida pela
mãe, que se esforça por fazer exigências
absurdas, através de Inês, para denegrir a
imagem do pai perante a filha, de cada vez que
uma exigência não é aceite.
Esta é apenas uma tímida manifestação da
síndrome de alienação parental, uma
psicopatologia pouco conhecida da opinião
pública, mas que, segundo psicólogos e juízes,
está a aumentar nos casais divorciados, com
sérias implicações para as crianças e pais.
Nos casos mais graves, esta patologia -
associada à frustração da rejeição e à
incapacidade de superar a dor sem recorrer à
vingança, através dos filhos - chega mesmo a
originar falsas acusações de abuso sexual, o que
é bem mais frequente do que se pensa.
Estima-se que, em cerca de metade dos divórcios
problemáticos, há acusações ou insinuações de
abuso sexual contra os pais, tal como refere o
presidente do Tribunal de Menores do Funchal,
Mário Rodrigues da Silva, em entrevista ao DN.
Este tipo de acusação predomina quando os filhos
são mais pequenos e, por isso, mais
manipuláveis, sendo induzidos a confirmar a
teoria das mães. E, às vezes, basta uma leve
insinuação, assessorada por hábeis advogados,
para instalar a dúvida num juiz e restringir as
visitas, agora que o tema da pedofilia suscita
um alarme social sem precedentes.
Essa é uma das razões pelas quais um número
crescente de especialistas tem defendido uma
maior especialização dos magistrados que tratam
com processos de regulação do poder paternal e o
apetrechamento dos tribunais com assessores em
psicologia. "Estes processos são, muitas vezes,
tratados por pessoas sem qualquer formação para
detectar sinais de alienação parental, o que só
deveria ser feito por psicólogos clínicos ou
psiquiatras experimentados", disse ao DN o
professor de Psicopatologia Joaquim dos Vultos.
Aquele que foi o primeiro assessor do Tribunal
de Menores de Lisboa não hesita em apontar
também o dedo aos advogados, que " estão apenas
interessados em ganhar a causa".
Na mesma linha, a psicóloga Maria Saldanha Pinto
Ribeiro diz que "os advogados sabem que a arma
do abuso sexual é poderosa e certeira e não
fogem a usá-la, escrevendo relatórios
insustentáveis, que atropelam a ética e
prejudicam as crianças". A autora do livro
Amor de Pai - em que conta a história de
dois pais falsamente acusados de abusos sexuais
- diz que as mães que fazem este tipo de
acusações "geralmente são mulheres que vêem os
filhos como um prolongamento delas próprias e
são incapazes de os colocar acima da dor, da
perda, da rejeição, da raiva".
Embora as crianças manipuladas não conheçam
sequer a teoria da alienação parental, são
profundamente marcadas por ela. A criança é
levada a odiar e a rejeitar um pai que a ama e
do qual necessita, sendo que o vínculo com o
progenitor pode ficar irremediavelmente
destruído. A depressão crónica e a incapacidade
de adaptação social podem ser fardos a carregar
por toda uma vida.