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Uma lei a favor dos pais |
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Revista Época- Edição
497 de 26/11/2007 |
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Um projeto prestes a ser aprovado oficializa o que
muitas famílias já fazem: a guarda compartilhada dos filhos e a igualdade total
entre pai e mãe separados |
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UM DIA COM O PAI, O OUTRO COM A MÃE
O pai, Evandro, de 41 anos, e a mãe, Patrícia, decidiram que os
filhos Matheus, de 14, e Gustavo, de 11, alternariam as casas |
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O psicólogo catarinense Evandro Luis Silva, de 41 anos, e a administradora de
empresas Patrícia Willi, de 40, estão separados há quase sete anos. Desde o
primeiro momento, a maior preocupação foi que os filhos, Matheus e Gustavo, não
perdessem contato com nenhum dos dois. No acordo de divórcio, declararam ao juiz
que queriam dividir igualmente os direitos, deveres e o tempo dos filhos.
Patrícia desde o início achava que seria bom para toda a família, uma vez que
Evandro sempre foi um pai participativo e, depois de separados, não faria
sentido afastá-lo dos filhos. “Ele sempre foi um bom pai e eu não queria que a
separação mudasse isso”, afirma Patrícia. O juiz, então, propôs a guarda
compartilhada ou conjunta, terminologia que vem de joint custody, do
Direito anglo-saxão. Hoje, Matheus, de 14 anos, e Gustavo, de 11, ficam um dia
com o pai e o outro com a mãe. As casas são próximas e uma mesma empregada
acompanha os garotos. “É mesmo um vai-e-vem, mas eles estão acostumados. São
felizes, saudáveis, bons alunos e prezam estar conosco”, diz o pai, Evandro.
Matheus afirma não sentir nenhuma tristeza por não ter os pais vivendo sob o
mesmo teto. “Eles nunca se separaram de mim”, afirma o menino. “Hoje, tenho a
certeza de que a presença do pai na vida dos meninos é muito importante”, afirma
Patrícia. |
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Até o início de 2008, o Congresso deverá aprovar o projeto de lei que
modifica o Código Civil e estabelece oficialmente a guarda compartilhada. Na
verdade, a lei será uma adequação a uma prática já existente. Juízes e
promotores perceberam que o homem se tornou mais participativo na vida familiar
e deseja um contato mais próximo com os filhos, mesmo depois de separado. Esse
pai quer ir além do papel de provedor, de genitor. Ele deseja decidir com a
ex-mulher a escola das crianças, estar com elas quando doentes. Quer, enfim,
estar mais presente no cotidiano dos filhos. A guarda compartilhada incrementa o
papel do pai na vida da criança. Nela, pai e mãe têm os mesmos direitos e
deveres, mesmo que a criança more com apenas um deles. Segundo o IBGE, hoje, em
91% dos casos de divórcio no país, a guarda é apenas materna. Com a guarda
compartilhada, é assegurado ao pai participar de todas as decisões que se
referem à criança – o que abre caminho para uma convivência mais assídua com o
filho. |
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Um estudo do Ibope revelou no mês passado novas características do pai
brasileiro moderno: 52% disseram que podem – e gostam de – cuidar da casa e das
crianças. A mudança é ainda gradual. Segundo a Associação de Pais Separados
(Apase) do Brasil, a maior parte dessas sentenças ocorre no Rio de Janeiro, em
São Paulo, Porto Alegre e Brasília. Na capital federal, o advogado Leonardo de
Oliveira, separado há um ano, conseguiu a guarda compartilhada dos filhos Bruno,
de 8 anos, e Gabriel, de 6, e ampliou sua participação na vida dos meninos.
Hoje, eles estão em sua casa em dias alternados. “Posso dizer que sou um pai
pleno. E sei que isso não é um direito meu. É um direito deles”, afirma. “No
começo a mãe dos meninos não ficou muito satisfeita, mas segue o acordo e acho
que com o tempo perceberá que foi o melhor.” |
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O projeto de lei, aprovado no mês passado no Senado e aguardando ratificação
da Câmara, nasceu da iniciativa de associações de pais separados que lutam pelo
direito de uma maior convivência com os filhos. Além da Apase, a ONG Movimento
Paterno Brasil, a Participais, a associação Pais para Sempre e o site Pai Legal
têm feito pressão no Congresso pela aprovação do projeto de autoria do
ex-deputado Tilden Santiago (PT/MG). No Orkut, há mais de mil comunidades sobre
o tema, todas de pais que reivindicam mais tempo com a prole, com nomes como “A
Favor da Guarda Compartilhada” e “Guarda Compartilhada Já”. “Esse negócio de 15
em 15 dias, de ver o filho um fim de semana sim, outro não, é cruel demais.
Vamos mudar essa lei absurda. Nós nos separamos de nossa mulher, não de nossos
filhos”, escreve Luiz Tenório, da maior comunidade, com 706 membros. |
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No mundo, o movimento de pais também é grande. A mais conhecida associação é
a inglesa Fathers 4 Justice (Pais por Justiça). O grupo faz performances em
locais conhecidos, com os pais quase sempre vestidos de super-heróis. No começo
do ano, um pai vestido de Homem-Aranha sentou-se no alto de um guindaste de 37
metros de altura, em Londres. |
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Se a guarda compartilhada virar lei, terá de ser a opção prioritária nos
casos de separação – inclusive as litigiosas. Se isso acontecer, o pai deve
saber que a guarda compartilhada não tem relação direta com pagamento de pensão
– e nem com regime de bens ou patrimônio na hora da separação. O advogado de
Família Paulo Lins e Silva esclarece: se a situação de visitação for modificada,
com a criança ficando, por exemplo, mais com o pai do que ficava antes, o
pagamento da pensão pode ser revisto, já que o pai terá mais gastos. “Mas uma
coisa não está diretamente vinculada à outra. Guarda diz respeito a decisões;
visitação, ao tempo que o filho passa com cada um dos pais. A pensão está ligada
à situação financeira de cada um dos ex-cônjuges e com a necessidade da
criança”, afirma o advogado. |
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Se virar lei, a guarda compartilhada será opção prioritária nas
separações |
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Para Lins e Silva, diretor do Instituto Brasileiro de Direito de Família, a
introdução da guarda compartilhada no Código Civil apenas oficializará um poder
que já existe por parte de pai e de mãe: o pátrio poder. Guarda compartilhada,
ao contrário que pensa a maioria, não é sinônimo de divisão igualitária do tempo
com os filhos. O pai ou a mãe pode ter a guarda física, ou seja, morar com a
criança. O ator Fábio Assunção tem a guarda compartilhada do filho João, de 4
anos, com a ex-mulher, a empresária Priscila Borgonovi. Quando ele faz novelas,
o garoto passa a maior s parte do tempo com a mãe, Assunção o visita sempre que
pode, já que o ator mora no Rio, e ela em São Paulo. Em períodos menos
atribulados, Fábio passa temporadas com o filho. “A guarda compartilhada permite
que eu discuta com a mãe do meu filho o que é melhor para ele. Nunca serei um
pai ausente”, diz. O que a nova lei vai suscitar, afirmam os advogados da área
de Família, é justamente um equilíbrio entre o poder do pai e da mãe. |
| Hoje, a tendência dos juízes, de forma quase automática, é dar a guarda para
a mãe. Em algumas situações, isso faz com que a criança acabe como moeda de
troca entre os ex-cônjuges. “Nos casos de guarda unilateral, os filhos têm sido
objeto da mãe”, diz o psicólogo carioca Sócrates Nolasco. Alguns advogados de
Família dizem que as mães, de modo geral, sentem-se prejudicadas pela
possibilidade da guarda compartilhada. Como, historicamente, costumam ter a
guarda unilateral, algumas acham que vão sair perdendo. Para a advogada paulista
Sylvia Mendonça do Amaral, respeitada profissional da área de Direito de
Família, é importante regulamentar esse tipo de guarda, já que nem sempre existe
o bom senso da mãe. Muitas que têm a guarda limitam o contato do pai com o filho
– e, às vezes, por ressentimento. “Ela faz exatamente o que manda a sentença de
separação ou sentença de guarda, que é o modelo de visita tradicional: nas datas
preestabelecidas e nos horários determinados. Se a proposta da guarda
compartilhada virar lei, ela será obrigada a fazer concessão”, diz Sylvia. |
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PAIZÃO
Fábio Assunção diz que a guarda dividida melhorou a vida com o filho,
João |
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A idéia da guarda compartilhada ainda é controvertida no meio
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| A idéia da guarda compartilhada ainda é controvertida no meio forense. Alguns
juízes e promotores acreditam que a aplicação possa ser duvidosa. Segundo eles,
um casal em litígio ou que tem dificuldades de conversar, dificilmente
conseguirá tomar decisões em comum sobre a vida do filho. “Hoje a guarda existe
na prática, mas sempre com casais separados que têm diálogo. Ou seja, se eles já
se dão bem, a lei nem seria necessária. Mas quem está em guerra não pára para
conversar”, diz a advogada mineira Juliana Gontijo, a mais importante advogada
de Família de Belo Horizonte, autora de livros acadêmicos, como Atendimento
Sistêmico de Famílias e Redes Sociais. |
| Com a instituição da guarda compartilhada, deverá crescer no Brasil a figura
do mediador. Ele que pode ser um advogado ou um psicólogo que trabalha junto aos
tribunais e promove um processo de resolução de conflitos. Alguém imparcial e
independente e que atua como ponte entre os ex-cônjuges que não conseguem se
entender. Com a guarda compartilhada e a atuação de mediadores, cria-se um campo
fértil para solucionar os impasses que vêm a reboque da maioria dos divórcios –
e aumenta a possibilidade de pai e mãe continuarem a cumprir seus papéis, sem
interrupção. Pesquisas feitas em vários países, nos últimos anos, sugerem que
filhos de pais separados tinham os mesmos tipos de problema emocional que os
filhos de pais casados. Os problemas ocorrem, na verdade, quando os casais não
se entendem – sejam eles casados, sejam divorciados. Foi o que constatou um
estudo da Universidade de Madison, nos Estados Unidos: as crianças de pais
separados que se tratavam civilizadamente eram saudáveis e bons alunos, tanto
quanto as que eram filhos de casais estáveis. O mesmo não acontecia com as
crianças cujos pais separados viviam num cabo-de-guerra. Conclusão: não é a
separação que prejudica a criança, mas a forma como vê seus pais conviver.
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| A desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul Maria Berenice
Dias é defensora ferrenha da guarda compartilhada, o que tem pautado suas
sentenças. Para ela, não seria preciso sequer alteração legislativa, já que uma
jurisprudência está, aos poucos, sendo criada. “De qualquer forma, havendo a
lei, o costume se estabelece mais rápido, porque há juízes que não sabem
flexibilizar”, afirma. Ela acredita que a guarda compartilhada é um instrumento
para desestimular o conflito. “Ela vai obrigar muitas pessoas a serem
civilizadas”, diz. |
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