|
O
ditado "o filho é da mãe" está caindo por terra. Cada vez mais há crianças
que vivem com os pais depois da separação. E também é maior o número de
homens que pedem a guarda dos filhos. Nos últimos anos, eles têm se
organizado em associações e lutam por bandeiras como a aprovação da lei da
guarda compartilhada, que tramita no Senado, e prevê que as
responsabilidades sobre os filhos sejam divididas igualmente entre pai e
mãe.
Essa nova formação da família brasileira aparece em indicadores sociais,
como o Censo 2000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). Em 1991, havia 636 mil pais vivendo com os filhos, sem cônjuge. Em
2000, eram 950 mil - 49% a mais.
"Essa mudança tem a ver com relações de gênero. Antes, o filho ficar com a
mãe era quase uma regra. E nem era socialmente aceito se a mãe não
quisesse ficar com os filhos. Hoje ela se sente mais à vontade porque
divide a responsabilidade do provimento da casa", diz a demógrafa Ana
Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).
O
psicanalista José Inácio Parente, especializado em paternidade e
coordenador do site www.pai.com.br, acredita que o homem entendeu que tem
função importante na formação do seu filho. Ele defende a guarda
compartilhada como a melhor solução para os casais que se separam. "As
únicas relações que conheço, como psicanalista há mais de 30 anos, em que
os ex-casados conseguem ter uma relação de respeito e até relativa
amizade, são aquelas em que os pais têm iguais condições de participação e
presença com os filhos", afirma.
FIM DO 'PAI DE PRACINHA'
As transformações nas famílias também se refletem no Judiciário. "Para o
juiz não interessa a vontade do pai ou da mãe, mas o interesse da criança.
Queremos que ela tenha as melhores condições emocionais, materiais e
sócio-afetivas", diz a juíza da 14ª Vara de Família do Rio, Katya Maria
Monnerat Daquer.
Levantamento feito por ela entre 1985 e 2004 nos arquivos da Vara mostra
que o primeiro processo de guarda proposto pelo pai só ocorreu em 1994.
Dez anos depois, os homens tomaram a iniciativa em 47,62% dos pedidos de
guarda. "E essa é uma vara de justiça gratuita. São pessoas mais humildes,
que não vão deixar os filhos com babás, mas realmente assumir a criação
das crianças", diz.
Mas o caminho a ser percorrido ainda é longo. "Há pais que esperam quatro
anos por uma decisão judicial e são obrigados a ver os filhos quando as
ex-mulheres permitem", diz o publicitário Marco Targino, da ONG
Participais. "Já fiquei quatro meses sem ver o meu filho, apesar da
decisão judicial que garantia visitas quinzenais. Eu poderia levar um
oficial de justiça, mas não quero que meu filho tenha minha imagem
associada à truculência." Ele pede na Justiça a guarda compartilhada.
Segundo Targino, a Participais, que começou em Brasília e ainda engatinha
no Rio, tem o objetivo de acabar com o "pai de pracinha". "Queremos ajudar
a escolher a escola, o médico, queremos ter o direito a ver o boletim",
conta.
Pesquisas nacionais e internacionais mostram que a ausência da figura
paterna tem efeitos para a menina, como sexualização precoce e gravidez na
adolescência, e para os meninos, como abandono da escola e uso de drogas.
Hoje, pais e mães se reúnem no Jardim Botânico para celebrar o Dia dos
Pais. O tema da festa desse ano será "Paternidade: muito prazer!" "Ser pai
já foi obrigação, hoje é um direito e nós queremos que seja um deleite",
diz o professor de Educação Física Victor Monteiro de Carvalho.
PAIS COM FILHOS
Depois de seis anos de relacionamento, Carvalho, de 32 anos, e a ex-mulher
decidiram separar-se e combinaram que o filho do casal, Matheus, então com
3 anos, ficaria uma semana com cada um dos pais.
O
acordo durou pouco. A mãe decidiu mudar de cidade e avisou que levaria o
filho. "Entrei na Justiça pedindo a manutenção do acordo enquanto durasse
o processo e pedi a guarda dele", conta Carvalho.
O
processo tramitou dois anos. Muitas visitas de assistentes sociais e
conversas com psicólogos depois, a Justiça decidiu que Matheus deve morar
com o pai. A mãe pode buscá-lo na escola todos os dias e ficar duas horas
com o menino, além de passar fins de semana alternados com ele.
Por um acordo informal, o enfermeiro Jorge Leandro do Souto Monteiro, de
34 anos, divorciado, pagava a escola, entre outras despesas, dos gêmeos
Brenda e Breno, de 7 anos. No ano passado, a ex-mulher dele disse que
queria regularizar a situação e assumir os gastos com a educação dos
filhos. Por conta disso, a pensão alimentícia passou a ser descontada do
salário de Monteiro.
No fim do ano, a surpresa: a escola estava atrasada havia quatro meses e
ela queria que ele arcasse com a dívida. Monteiro se recusou. As crianças,
então, foram matriculadas pela mãe em nova escola com mensalidade de R$
70, próxima a uma favela onde tiroteios são constantes.
Foi então que ele decidiu pedir, com sucesso, a guarda dos filhos, que já
moram com o pai há dois meses. "Não acreditava que iria conseguir a
guarda. A gente sempre pensa que a Justiça acha que filho tem que ficar
com a mãe. Mas as assistentes sociais deixaram claro que ficaria com eles
quem cuidasse melhor, tivesse propostas melhores", conta Monteiro. |