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Durante o desenvolvimento histórico, podemos verificar a importância da família
no contexto social, pois como pode ser observado e até mesmo salientado por
especialistas, os conflitos gerados nesta entidade causam reflexos que atingem
não só os seus integrantes como também o meio ao qual pertencem.
Há pouco, a cidade de Pelotas ficou chocada com a atitude brutal da mãe que,
para ferir o marido, matou suas duas filhas. Tal gesto é fruto, não só dos
problemas psicológicos que esta mulher sofre como também da falta de uma
política de acompanhamento psicossocial por parte do Judiciário nos processos de
separação.
De acordo com estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), o número de separações judiciais e divórcios vem aumentando
gradativamente. De 1993 a 2003, o volume de separações subiu de 87.885 para
103.529 e o de divórcios de 94.896 para 138.676 (ou 17,8% e 44%,
respectivamente).
A proporção de casais com filhos menores de idade nas separações judiciais
(61,9%) foi mais alta do que nos divórcios (45,3%). Em sua grande maioria, a
responsabilidade da guarda dos filhos menores era das mães (91,4%), tanto nas
separações quanto nos divórcios (89,7%), seguida pelos pais (5,1% nas separações
e 6,1% nos divórcios). Somente em 3,5% das separações e 4,2% dos divórcios,
ambos os pais eram responsáveis pela guarda de filhos menores.
Mas desta evolução, também surgem questões que até então não eram nem mesmo
mencionadas, como os conflitos e danos que as crianças e os adolescentes sofrem
com a separação dos pais.
No momento em que ocorre a separação, mãe e pai se encontram vulneráveis e
desprotegidos, mas embora ambos se encontrem em uma situação fragilizada é a
criança que devido a sua vulnerabilidade e dependência, será prejudicada,
sofrerá perdas e, portanto deve ter seus direitos assegurados a qualquer custo.
A guarda monoparental (aquela em que apenas um dos genitores detém a guarda),
infelizmente, é terreno mais propício a projeções. Pensa-se que se está
protegendo os filhos, quando no fundo, tenta-se proteger a si mesmo, dos seus
medos e angústias.
Durante longo tempo várias instituições vêm surgindo com o intuito de
conscientizar pais e principalmente a sociedade, a respeito da importância do
diálogo aberto, do progresso não só cultural, como também jurisdicional, posto
que a nossa legislação é omissa no que diz respeito à possibilidade de uma
solução, que seria a guarda compartilhada e, assim, provocando situações que
inevitavelmente irão ocasionar o litígio e, conseqüentemente, atingir de maneira
direta e dependendo da situação, irreversível, seres em pleno desenvolvimento
educacional e principalmente emocional.
Em entrevista com a psicóloga Cibérie Santos, que efetua atendimentos no Naca
(Grupo de Apoio à Criança e ao Adolescente), esta comentou que a criança e o
adolescente acabam refletindo socialmente o que vivenciam no dia-a-dia e que
estes, por menor que seja o litígio dos pais, sempre sofrerão algum prejuízo.
Ainda relatou que crianças que passam por estas situações de conflito familiar
podem sofrer com uma diminuição no seu desenvolvimento educacional e
principalmente traumas, dependendo da situação específica.
Hoje temos ONGs de âmbito nacional, como por exemplo, Apase (Associação de Pais
e Mães Separados - representante Pelotas: Moisés Rodrigues), que tem como meta a
conscientização de pais e da sociedade em geral, a respeito da guarda
compartilhada, da importância, da presença de ambos os genitores no
desenvolvimento biopsicossocial da criança e adolescente, visto que a criança
tem o direito de conviver com pai e mãe após a separação conjugal.
Estas crianças, frutos de litígios, acabam repassando os mesmos valores para os
seus filhos, porque embora de maneira inconsciente, procuram relacionamentos que
se assemelhem aos dos seus pais e, mesmo que involuntariamente, repassam os
mesmos valores aprendidos e até mesmo reprovados por eles, formando-se assim, um
ciclo vicioso.
Por isso, há necessidade constante de diálogo, de instituições que acolham e
apóiem vítimas não apenas de abuso físico, mas também emocional, porque estas
crianças e adolescentes, vítimas do conflito familiar, irão construir a
sociedade de amanhã.
Márcia Denise da Silva Rodrigues
Bacharel em Direito
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