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Um drama familiar de grandes
proporções virou do avesso a vida do médico Armando Morelli Acatauassu, 43 anos,
e de sua filha Betsy Lee McGlohn, 13 anos.
Ele vive a situação inusitada de se transformar, do dia para a noite, de médico
respeitado no Pará, que nunca teve qualquer problema com a polícia, em foragido
da Justiça. A confusão toda foi criada porque Armando decidiu arriscar tudo em
respeito à decisão de sua filha, que optou por permanecer com ele no Brasil (e
no Pará) ao invés de voltar a morar com a mãe, Cathy Lee Barata McGlohn, nos
Estados Unidos.
A história do casal começou em 1991 quando Armando casou com Cathy, que é
paraense mas tem dupla nacionalidade por ter pai americano. Ficaram juntos até
2000, quando ocorreu a separação e se iniciou a briga pela guarda da única
filha. Enquanto o processo corria na Justiça, foi firmado um acordo pelo qual a
menor passaria a viver com a mãe, passando fins de semana alternados com o pai.
Acontece que, no dia 17 de julho de 2001, apesar de um documento assinado pela
desembargadora Isabel Benone impedindo que a menor saísse de território
paraense, Armando conta que Cathy forçou Betsy a escrever uma carta onde
afirmava que havia sido proibida (pelo pai) de ver a avó, que estaria doente nos
Estados Unidos. “Na ocasião, um juiz que não era sequer da Vara de Família, foi
subornado (isso está provado no processo) e autorizou que minha filha viajasse.
Na verdade, ela fugiu com minha filha para os Estados Unidos”, denuncia.
De julho de 2001 a fevereiro de 2002, Armando não sabia do paradeiro de sua
filha - que estava na Flórida. “Em seguida, conversei com a mãe dela para que a
menina passasse pelo menos as férias comigo. Em 2003, fechamos um acordo pelo
qual ela passaria as férias de julho comigo e um final de ano sim, outro não. E
passei a pagar uma pensão mensal a ela, por isso, no valor de US$ 500,00”,
recorda.
O acordo foi cumprido no ano de 2003 e Betsy voltou ao Brasil para ficar com o
pai, novamente, em julho de 2004. “Toda vez em que ia voltar para os Estados
Unidos minha filha ia chorando daqui, até com raiva da gente. Era como se ela
dissesse: ‘Pai, me segura aqui’. Só que ela nunca falava nada. E eu não podia
fazer nada porque havia um acordo judicial”, conta Armando. Depois disso, Betsy
passou um ano sem vir ao Brasil.
Justiça tirou guarda do
pai
Nas férias de julho de 2005,
Betsy abriu o jogo e disse que não queria mais retornar aos EUA para morar com a
mãe. “Pode até parecer mentira, mas fiz tudo para que voltasse, pois estudava e
tinha uma vida lá. Foi quando ela me contou que queria ficar comigo e não era
feliz com a mãe, apesar de amá-la muito”, diz Armando Morelli.
Em seguida, ele procurou um advogado e iniciou o processo para ficar com a
guarda da filha, inclusive com avaliação psicológica feita pelos profissionais
do Juizado da Infância e Adolescência, onde a menina novamente manifestou a
vontade de permanecer no Brasil ao lado do pai.
Em agosto de 2005, a Cathy chegou ao Brasil e dias depois foi visitar a filha.
Betsy, segundo Armando, entrou em pânico. “A Cathy começou a chorar e a gritar,
fazendo um escândalo no prédio. Os encontros entre mãe e filha continuaram, mas
a pressão psicológica em cima da criança era enorme”, relembra.
Ainda em agosto do ano passado, Cathy esteve na casa do médico enquanto ele
estava operando num hospital. Chegou acompanhada de dois oficiais de Justiça,
querendo levar a criança de qualquer maneira. “Ela tinha uma ordem para passar o
final de semana com a Betsy mas exigia que ela levasse o passaporte dela. Isso
não existe. Ela e a filha são cidadãs americanas e podem embarcar a qualquer
hora sem a necessidade de visto. Era isso que ela queria. Levar minha filha
daqui, mas não conseguiu”.
Depois desse episódio, Armando decidiu sair de Belém com a filha até setembro,
procurando preservar a menina de qualquer pressão materna. A Justiça manteve a
guarda com Armando e Cathy retornou para os Estados Unidos em outubro, tendo o
direito de ver a filha sempre que quisesse. Em janeiro deste ano, após o recesso
do Judiciário, ela voltou ao Brasil.
“Para nossa surpresa, a desembargadora Isabel Benone reverteu inteiramente o
processo, me colocando como fugitivo da polícia, uma coisa inconcebível”,
protesta. Ele lembra que, em 2001, quando a mãe raptou Betsy pela primeira vez,
seis desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado concordaram que a guarda
teria que ser do pai. “Ainda assim passei dois anos sem ver a minha filha e a
Justiça não fez nada, mesmo com a guarda sendo minha”, critica.
O médico afirma que, em nenhum momento, pressionou a filha para que ficasse em
Belém. “Disse à mãe que sempre acatei a vontade da menina. Ela passou cinco anos
nos Estados Unidos e respeitei isso. Agora que ela manifestou a vontade de ficar
aqui comigo, vou lutar por isso até o fim. A hora em que ela quiser voltar para
o exterior, está liberada. O problema é que ela não quer”.
Menina diz que prefere
ficar no Brasil
Há mais de uma semana, Armando
Morelli resolveu levar sua filha para um lugar que considera seguro. Na
sexta-feira, 27, a reportagem do DIÁRIO foi ao seu encontro para que ele pudesse
tornar público seu drama particular. Abatido, o médico diz que continuará
escondido até que a decisão judicial que o considera foragido seja revertida.
“Nem que eu vá preso minha filha sairá do meu lado. Não deixarei que ela fique
infeliz, sofrendo nos Estados Unidos. A ironia disso tudo é que acabo de saber
que me tornei um criminoso apenas por defender um direito constitucional da
minha filha”, lamenta.
Por estar viajando com a filha, Armando não foi sequer citado da decisão da
Justiça paraense. “Acredito que esteja ocorrendo uma pressão muito grande de
setores poderosos em cima dessa decisão. A sociedade precisa saber do meu drama,
pois não tenho a quem recorrer”, diz o pai.
Como médico, ele chega a fazer 300 cirurgias por mês, mas sua vida virou um
inferno desde que a batalha judicial por Betsy teve início. “Sou um cara
pacífico, que salva vidas e me vejo impedido de realizar meu trabalho. Sem falar
que minha filha precisa voltar a estudar nos próximos dias e não sei como vou
fazer. Estou isolado aqui e não sei nem como está a minha família. Soube que meu
pai está passando muito mal em Belém em função de tudo isso. Estou
desestruturado”, desabafa.
Segundo as informações do ex-marido, a mãe de Betsy é uma americana típica, que
trabalha de segunda a sábado. “Como ela namora hoje um maratonista, aos finais
de semana ela deixa a menina sozinha em casa e vai correr. Betsy ficava lá
completamente só, tendo inclusive que cozinhar e arrumar o quarto dela”, diz
Armando.
Além disso, a menina possui problemas sérios na coluna. Exames confirmaram a
existência de cifose e escoliose graves. “Pedi à mãe para fazer o tratamento,
mas nada foi providenciado. Ela também tinha problemas nos dentes. Em julho do
ano passado, colocamos o aparelho dental que ficou um ano nos Estados Unidos sem
qualquer manutenção. Quando ela voltou ao Brasil, o aparelho estava todo
quebrado. São tratamentos caros que a mãe não tem condições de arcar, enquanto
que eu posso, por ser médico e possuir muitos contatos”, argumenta.
Apesar de ter vivido situações inesperadas e até turbulentas para uma
pré-adolescente, Betsy é alegre e extrovertida. Abraçada ao pai, ela diz que não
quer viver com a mãe porque fica “muito solitária lá com ela”. De acordo com
ela, a mãe “vive sempre correndo e em maratonas aos finais de semana e eu não
consigo, não gosto de correr”.
Diz ainda que, apesar de ter mãe, avó e tio nos Estados Unidos, prefere ficar no
Brasil “porque aqui eu tenho uma família de verdade e aqui não sou solitária. Já
falei isso muitas vezes para minha mãe, mas ela não acredita. Fico aqui porque
eu quero. Aqui sou mais feliz”, afirma a menina.
A desembargadora Isabel Benone, procurada pela reportagem do DIÁRIO, na
sexta-feira à tarde, preferiu não se manifestar. Disse que, na condição de
magistrada, não pode ser posicionar. Já a mãe de Betsy, Cathy Lee McGlohn,
procurada por telefone, não foi localizada para falar sobre o caso.
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