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Os
tribunais continuam a dar preferência às mulheres, mas os homens de
hoje estão cada vez mais presentes na vida dos filhos.
Pais
com filhos pela mão, a empurrar carrinhos de bebé ou com crianças ao
colo. As imagens são cada vez mais freqüentes nas ruas, mostrando que
os
homens assumem sem complexos nem enfados o papel de pai. Isto mesmo
quando os tribunais, em caso de divórcio, continuam a entregar a custódia
das crianças às mães.
Figura
essencial na estruturação da personalidade de uma criança, os dramas
dos pais de hoje – cujo dia se assinala amanhã – são outros e começam
na partilha e na disputa de afectos. Ao abrir o espaço doméstico aos
homens, as mulheres a abrir os afectos aos pais que estão disponíveis
para a partilha
de tarefas, mas também para a disputa do poder paternal. O mundo
moderno tirou tempo às famílias, mas deu a muitas crianças de hoje um
pai presente, uma nova fonte de carinho e amor.
João
Correia, responsável pela Associação de Famílias Numerosas na
Madeira, reconhece que, nos primeiros anos de vida, a relação entre
filho e mãe é
muito próxima. É uma questão física que, quer se queira quer não, não
se
ultrapassa. No entanto, a partir dos três anos, o pai é essencial para
o
desenvolvimento da criança, seja rapaz ou rapariga.
No
entanto, João Correia, que é também director regional do Saneamento
Básico, nunca faltou às suas obrigações de pai, mesmo quando os seus
filhos eram pequenos. O projecto de criar uma família grande foi do
casal e, por isso, esteve sempre presente. «É verdade que, há 18
anos, quando o meu filho mais velho nasceu, as pessoas olhavam para trás
quando me viam com ele no marsupial». Nessa altura, vivia em Lisboa,
dava aulas e levava o filho para as reuniões de notas porque não tinha
onde deixá-lo.
A
partilha de tarefas e responsabilidades manteve-se pela vida fora,
acentuando-se ainda mais conforme foram nascendo mais crianças. Sem
complexos, sem nunca se sentir diminuído. Uma vez, conta, numas férias
da
Páscoa, teve que meter férias para ficar a cuidar dos filhos e da
casa. A mulher tinha reuniões, a empregada não pôde vir. A solução
foi ficar em casa. «Não gosto de fazer, mas alguém tinha que fazer
almoço e jantar, tratar da roupa, dessas coisas da casa».
A
verdade é que, de certo modo, a mudança social que levou as mulheres
para o trabalho fora de casa ajudou os pais a aproximarem-se dos filhos,
sendo-lhes quase exigido que estivessem presentes na vida dos filhos, no
seu
crescimento, na sua educação. «Não tenho dúvidas que essa é uma
das coisas
boas do nosso tempo».
O
tempo escasseia, as pessoas fazem tudo à pressa, mas as novas gerações
têm um pai muito mais presente e afectuoso. Uma presença outras gerações
não
tiveram, já que os papéis eram mais rígidos. Na família, pai e mãe
têm cada
vez um papel mais igual, mais próximo. E, ao contrário do que parece
ser voz corrente, João Correia garante que, pela experiência que tem,
isto é cada
vez mais frequente. «Basta olhar para a rua e perceber que os pais têm
orgulho nos filhos, em estar com os filhos».
Mesmo
quando as circunstâncias da vida alteram a estrutura da família essa
presença não desaparece. Também aí, dos casos que conheceu de perto,
o
responsável regional da Associação de Famílias Numerosas refere que
são
muitos os homens que querem continuar a participar da vida dos filhos,
querem educá-los, vê-los crescer e que estão dispostos a lutar por
isso.
A
lei portuguesa não determina que os filhos fiquem com a mãe ou com o
pai.
A
decisão, em caso de divórcio dos pais, cabe ao tribunal, que terá que
ponderar o que é melhor para o menor: se ficar com o pai ou com a mãe.
A
opção maioritária, de acordo com a experiência empírica do advogado
Tranquada Gomes, é por entregar as crianças à guarda da mãe.
O
que, quando se trata de crianças de tenra idade, se compreende, refere
o advogado. Embora a sua carreira o tenha encaminhado para outras
áreas do
Direito, a impressão que tem é que, na hora do litígio, as crianças
são
usadas na disputa entre os pais. O que nem sempre é sincero da parte
dos homens. Nem todos estão realmente conscientes do que significa
tomar conta de um menor, que exige atenção e cuidados, para além de
uma vitória pessoal em tribunal.
Conforme
lembra Tranquada Gomes, o tribunal, nestas situações, tem que
ponderar com quem é que a criança fica melhor. E nisso, quase sempre,
as
mulheres estão dispostas a fazer mais sacrifícios do que os homens.
Por
questões de ordem física, que começam na gravidez e que se prolongam
na vida por motivos de ordem cultural. «Os pais, de uma maneira geral,
tendem a refazer a vida mais facilmente, de modo mais desprendido».
A
impressão que fica é que os tempos são de mudança. Os homens estão
mais disponíveis, mais presentes na educação dos filhos. Há uma
parte que, quando o casamento acaba, não quer perder o direito a vê-los
crescer. Os pais de hoje são diferentes e não é apenas porque lhes dão
banho, mudam fraldas, vão
ao médico e assistem às reuniões de pais do infantário e da escola.
É porque esses pequenos gestos criam laços poderosos, como as mulheres
muito bem sabem há milhares de anos: «A mão que embala o berço
comanda o mundo».
Um
dia para lembrar os direitos dos homens: Os pais ainda têm muitas
dificuldades em partilhar a educação dos filhos com as mães.
Os
comportamentos mudaram. Os pais de hoje mudam fraldas, levam os filhos
à creche, participam na educação, querem vê-los crescer, mas, ainda
assim, na altura de discutir a custódia, os tribunais continuam a optar
por entregar o
poder paternal às mulheres. E, por isso, Emanuel Alves, psicólogo,
entende
que o Dia do Pai deve ser aproveitado para chamar atenção para os
direitos dos homens em relação aos filhos.
O
psicólogo refere que o direito a partilhar o poder paternal é, em
muitos
países europeus, uma ilusão, mesmo quando a lei não discrimina os
homens. O
certo é que, por norma, o tribunal entende que é melhor que a criança
fique
à guarda da mãe. «Então um pai será pior educador do que uma mãe
porquê?», refere Emanuel Alves, salientando que esta é uma das
maiores lutas dos
homens de hoje.
No
Reino Unido, por exemplo, os pais reuniram-se em torno de uma associação
que promove actos insólitos para chamar a atenção para os direitos
dos pais. Aparecem vestidos de super-heróis, em prédios altos, em
monumentos, tendo chamar a atenção para a sua causa.
Em
Portugal, os homens, segundo o psicólogo, travam uma luta silenciosa,
nos tribunais, pedindo para terem direito a participar, de forma plena
na
educação dos filhos. Às vezes, o pai apenas parece essencial enquanto
há uma relação estruturada.
Aliás,
Emanuel Alves lembra que se tende a confundir certos papéis. Hoje, dada
a evolução da sociedade, associa-se a um bom pai aquele que ajuda a
mãe, que muda fraldas, que partilha tarefas domésticas. Na verdade, «isso
não quer dizer que vá ser melhor ou pior pai. Isso, em primeiro lugar,
significa que é um bom companheiro, que partilha as tarefas». Os
afectos, a presença ou ausência da figura paternal não se podem
avaliar por isso.
Muitos
pais, explica, são ausentes, desligados dos filhos, mesmo quando
estão em casa sempre, partilham hábitos, jantam e almoçam juntos. E o
contrário também é verdade. O pai não presente, mas mesmo assim
elemento estruturador de toda a família. Isso acontece em casos de divórcio,
em que o pai sai de casa, mas continua atento, presente nos momentos
mais importantes da vida dos filhos. «Acontecia connosco consequência
sobretudo da emigração. O pai não estava, mas era lembrado sempre
como aquele que estava a trabalhar pela família».
Não
se pode negar, no entanto, que o papel do pai mudou muito nos últimos
40 anos, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Como já foi
referido não tanto pela partilha, mas sobretudo pelo que isso favoreceu
a
aproximação dos homens dos filhos. O que antes não acontecia, já que
os
papéis estavam estabelecidos de forma rígida: os homens trabalhavam;
as mulheres ficavam em casa a tomar contas das crianças.
Marta
Caires
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