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APASE
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Associação de Pais e Mães Separados |
Revista Veja – Edição de 11 de agosto de
2004
Seção Ponto de Vista
PARA
HONRAR UM PAI
Lya
Luft
| Vivi o bastante para conhecer facetas do ser humano que nem o diabo adivinharia. O anjo do lar, a santa senhora, nem sempre realiza essa função. Muitas vezes se porta como dona dos filhos, traindo aquele que devia ser seu parceiro, deixado à margem da ternura e da alegria. |
Tenho
escrito e falado sobre transgredir modismos e nadar contra correntezas. Mas
podemos usar a força das águas em nosso favor para chegar a uma praia. Datas
comerciais, como o Dia das Mães, o Dia dos Pais e tantas outras, podem
proporcionar gestos necessários e salvadores – se verdadeiros.
Datas
como essas mexem com emoções complicadas e por vezes dolorosas. Mas, já que
estão instauradas, é possível usar delas com delicadeza: prevenir-se de
gastos extravagantes e manifestações constrangedoras porque falsas, e agir com
naturalidade, sendo terno, sendo sincero. Melhor,
aliás, calar-se, caso o afeto seja inexistente ou ralo demais até para um abraço,
um telefonema que seja. Calar pode ser mais decente do que fingir.
Seria
o Dia dos Pais mais complicado emocionalmente que o das Mães? Sempre é fácil
fazer onda com a figura da mãe: a santa senhora, a tantas vezes vítima, a
tantas vezes sacrificada. Mas, muitas vezes, se não houve um verdadeiro e cálido
afeto, não sabemos bem o que fazer com a outra parte, o pai – em geral visto
mais como o provedor, o que passava o dia fora, o que reclamava dos gastos, o
que conferia o boletim, o que chegava tarde e saia tão cedo que mal o encontrávamos.
Não
posso falar dos homens sem pensar em suas mulheres: nem sempre tão boazinhas
quanto nos faz parecer parte da literatura, da tradição. Como cumpriram ou
cumprem seu papel de introduzir o homem na vida dos filhos e abrir-lhe o espaço
necessário – do qual meninos e me ninas precisam para que sua visão do mundo
e do humano seja mais completa?
Vivi
o bastante para conhecer facetas do ser humano que nem o diabo adivinharia. O
anjo do lar, a santa senhora, nem sempre realiza essa função. Muitas vezes se
porta como dona dos filhos, traindo (não se trai só na cama) aquele que devia
ser seu parceiro, e não apenas mantenedor de um status, deixado à margem da
ternura e da alegria, correndo de um lado para outro para sustentar a família,
sem estar de verdade integrado nela.
Círculo
filhos-mãe fechado, o que moureja para que tudo isso se mantenha apenas espia,
vagamente desajeitado. Nem sempre é assim, claro: mulheres generosas e
equilibradas, por amarem verdadeiramente os filhos, fazem questão de que seus
homens participem. Porque, não se iludam, filho precisa de pai para ser também
um homem íntegro.
Dia
dos Pais pode parecer bobagem, mas com certeza o velho espera alguma coisa.
Porque velho pai ou pai moço é gente: entra na onda e, ainda que não espere
presente, certamente espera carinho, memória, esforço para superar alguma
barreira. Por isso mesmo, caso ainda exista amor, é bom reavivar os velhos traços.
Qualquer coisa que dê a mensagem: você ainda é tão importante como quando eu
tinha 4 anos e você se levantava de noite para me confortar de um pesadelo. Ou
me apanhava na escola quando a mamãe não podia. Ou me ensinou a jogar bola, me
defendeu quando meu irmão maior me batia, me aconselhou no primeiro emprego ou
no primeiro namoro, me levou ao pediatra, ao terapeuta, me ensinou a nadar, a
pescar, a começar a viver.
Para
honrar um pai na vida adulta é preciso a coragem de um coração grande e a memória
daqueles tempos em que o passo dele no corredor nos salvava quando a gente era
pequeno – e a noite, muito escura.
Lya
Luft é escritora