Zero Hora - Comportamento - 09 de novembro de 2003
Pai é para sempre
Os homens assumiram a
paternidade e não querem mais abrir mão desse direito (e dever) depois
da separação. Para isso, está surgindo um movimento masculino
Patrícia Rocha
Há cinco anos, o analista de sistemas paulista Paulo Habl, 45 anos saiu do tribunal vencido. No mesmo dia que virava ex-marido, perdia o direito de ver o filho diariamente. De pai, passava a visitante, a cada 15 dias. Três anos depois, tomou coragem e entrou na justiça: queria mais tempo com o menino. Pedido negado. Como não havia mais nada a fazer na corte, decidiu desabafar na Internet. Em fevereiro de 2002, surgia o site Pai Legal, uma associação que hoje reúne mais de mil homens que, como Paulo, reivindicam o direito de participar da rotina do filho, dar banho, buscar no colégio e ler histórias antes de dormir.
Com o mesmo objetivo, dezenas de outras associações no Brasil e no Exterior mobilizam milhares de militantes em um inédito movimento masculino. As mulheres passaram anos pedindo aos maridos para dividir as tarefas domésticas. Muitos atenderam à queixa e tomaram gosto. Agora, eles batem à porta das ex para pedir a guarda compartilhada dos filhos.
- Queremos viver os momentos família, assim como a mulher quis viver as experiências fora de casa, no mercado de trabalho - afirma Habl, que reside em Londres e comanda virtualmente a associação.
O movimento já tem jargões próprios (os militantes não querem ser "pais periféricos" nem "pais quinzenais") e reivindicações obrigatórias - a compreensão das ex-mulheres e o fim do preconceito de magistrados que ainda veriam o pai como mero provedor. Mas os homens não ficaram só no discurso: associações prestam serviços via Internet, como consultoria jurídica e psicológica. Por pressão de entidades, como a precursora Associação de Pais e Mães Separados (Apase), três projetos de lei estão em tramitação, todos em defesa da guarda compartilhada dos filhos (que se dividiriam entre as casas dos pais), a exemplo de países como os Estados Unidos.
- Queremos que a criança possa conviver com ambos os pais depois da separação. Já temos um grupo de magistrados determinados a que pai e mãe participem efetivamente da vida do filho - afirma o catarinense Carlos Bonato, que preside a Apase.
Entre o desejo e a aplicação da guarda compartilhada há uma distância a ser percorrida. É preciso preencher os requisitos que atendam à lei - consenso entre pai e mãe e condições de ambos para cuidar do filho e oferecer a ele uma rotina saudável. Falta também uma dose de iniciativa.
A juíza da 2ª Vara de Família de Porto Alegre, Gláucia Dipp Dreher, afirma que a guarda compartilhada ainda é pouco solicitada, apesar de os homens demonstrarem cada vez mais interesse na visitação livre aos filhos. Por tradição cultural, orientação da justiça ou mesmo escolha dos cônjuges, a maioria das crianças segue sob a guarda da mãe, mas com o Novo Código Civil e a aprovação de alguma das leis em tramitação, isso poderá mudar.
- A guarda materna não é mais absoluta, tem sido assim principalmente por opção dos genitores. Mas a tendência será a guarda compartilhada, e o Rio Grande do Sul é pioneiro na área de direito de família - afirma a juíza Gláucia Dipp Dreher.
Enquanto a única alternativa for a visita, vale o acordo entre pai e mãe. Quando os ex-cônjuges se dão bem, geralmente é fácil o pai ter o apoio da ex-mulher para passar mais tempo com as crianças. O publicitário Júlio Machado, 43 anos, é um exemplo de que é possível encontrar o equilíbrio: apesar de não ter a guarda das filhas Marcela, sete anos, e Roberta, cinco, as vê todos os dias. Durante a semana, ou ele almoça na casa das meninas ou as busca na escola. Às quartas-feiras e em finais de semana alternados, elas dormem na sua casa. Quando é o final de semana da mãe, por um acerto do casal, as meninas vão para a casa de Júlio na noite de domingo, para matar a saudade.
- Nunca me senti um pai visitante - ressalta ele.
Outros pais - a maioria absoluta dos que acessam os sites das associações - estão descontentes. Querem mais tempo com os filhos. O administrador Carlos Costa Junior, 49 anos, não marca nenhum compromisso para terças e quartas, os dias em que recebe o casal de filhos - frutos de dois relacionamentos anteriores -, além de finais de semana alternados.
- Chego a ficar quase uma semana longe deles - desabafa.
Carlos entrou com uma ação na justiça para tentar ampliar o direito de visitação ao filho caçula, mas o juiz entendeu que seu acordo com a ex-mulher já era satisfatório. Dois pais inconformados tomaram atitudes extremas na semana passada. Em Minas Gerais, Adelmo Pessoa completou 16 dias de greve de fome na quarta-feira, tentando convencer a ex-mulher a deixá-lo passar mais tempo com o filho. Com o mesmo objetivo, o londrino David Chick foi preso depois de passar seis dias no alto de um guindaste, vestido de homem-aranha - o personagem favorito da filha. Ele queria protestar contra o pouco tempo que sobra para para os pais, depois da separação. Chick teve o apoio do Fathers 4 Justice, outro grupo de defesa do direito dos pais.
Além de sensibilizar os juizes, alguns pais precisam ainda convencer as ex-mulheres. Há mães que impedem a visitação ao filho - "ele está dormindo", "saiu com os amigos", "está doente" - ou que não concordam em flexibilizar os horários estipulados. Para mudar isso, a ParticiPais criou um serviço de mediação: terapeutas que tentam facilitar o diálogo entre os ex-cônjuges. A estratégia é telefonar ou mandar e-mails chamando para uma conversa. Se não funcionar, vale enviar reportagens e dados sobre como a ausência do pai pode prejudicar a criança.
- Algumas mulheres são receptivas e até vão com os ex-maridos a reuniões da associação. Outras são arredias. Tento mostrar que é o sofrimento do filho que está em questão - diz a terapeuta de família Marilia Couri.
As ex não são apenas vilãs. Há mulheres que tentam de tudo para que o ex-marido não seja um ex-pai, até buscam apoio das associações de pais - hoje mães separadas e madrastas também integram essas entidades.
- Muitas mulheres nos pedem ajuda para resgatar o marido que sumiu. Infelizmente, essa situação é freqüente - reconhece Alfredo Lima, presidente da ParticiPais, com sede em Brasília.
Se os homens podem entrar na justiça requerendo guarda compartilhada ou mais visitas, as mulheres pouco têm a fazer quando os ex-maridos abandonam o filho.
- Não há mecanismo legal para obrigar o pai a visitar o filho. O abandono financeiro (não-pagamento da pensão) gera prisão, o abandono afetivo, não - destaca a advogada de família Mônica Guazzelli.
Diferentes motivos levam um homem a abandonar o filho depois da separação, do mau exemplo do próprio pai a questões que só poderiam ser resolvidas no divã do analista. Nessa lista, até a mulher pode ter sua parcela de culpa.
- Existe ainda a mulher que não deixa o marido ser pai: "ah você não sabe trocar fralda, deixa comigo". Ele se sente pouco valorizado e pensa "então você fica com a criança, e eu vou cuidar de outras coisas" - afirma a terapeuta Marilia Couri.
Os milhares de homens que trocam e-mails, experiências e queixas nas associações de pais são prova de que eles estão cada vez mais dispostos a assumir todos os cuidados com seus filhos. O novo pai que há tempos vem sendo anunciado em livros, revistas e jornais - e cobrado pelas mulheres que se dividem na dupla jornada, doméstica e profissional - não quer voltar atrás com a separação. Depois de anos de feminismo, os papéis parecem se inverter. Elas detêm o poder, e eles se unem e reivindicam. O ideal é que nessa queda-de-braço vençam os filhos.
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Quando o pai é ausente |
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- Meninas têm 2,5 vezes mais propensão a engravidarem na adolescência
e 53% mais chances de cometerem suicídio. |
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"É preciso preservar o contato diário" |
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O psicólogo catarinense Evandro Luiz Silva faz campanha pela guarda
compartilhada na teoria e na prática. Em dezembro, ele defende na UFSC
a dissertação de mestrado Guarda de Filhos: Conseqüências Psicológicas.
No dia-a-dia, divide igualmente com a ex-mulher o tempo e os cuidados
com os dois filhos. |
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Em busca da guarda da filha |
| RAFAEL KALSING / Técnico em telecomunicações, 26 anos, separado há três, membro da Associação de Pais e Mães Separ |
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Depois da minha separação, há três anos, passei a morar em Esteio, e minha ex-mulher e nossa filha, de cinco anos, em Florianópolis. Entramos em acordo de que eu ficaria com a menina uma semana por mês, até que ela entrasse na escola. Há dois meses, minha ex-mulher se mudou sem me avisar, e fiquei um mês e meio sem contato com minha filha. Eu havia dado a ela um celular para manter contato, mas o aparelho se "extraviou". Tentei localizá-las e não consegui e acionei a polícia de Florianópolis. Pedi afastamento do trabalho e fui a Santa Catarina para tentar achar minha filha. Há pouco mais de 20 dias, a encontrei morando perto da antiga casa. Então, decidi entrar com uma ação judicial para fazer valer os meus direitos de pai e para o bem da minha filha. Quero pedir a guarda da menina. Se não conseguir, quero ao menos que o juiz assegure o direito de vê-la. Mas sei que nesse processo o pior prejudicado é sempre a criança. |
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Saiba o que fazer para |
| ... melhor aproveitar o tempo com o filho nas visitas ou finais de semana |
| Esteja realmente com ele. Estar com o filho não é levá-lo a um parque e apenas assisti-lo brincar. Aproveitar os dias de visita para convidar amigos e seus filhos para alguma atividade também não deve ser uma opção freqüente. O importante é encontrar algo para fazerem juntos - e a sós. |
| ... encurtar a distância quando pai e filho moram longe um do outro |
| Além de telefonar e mandar e-mails diariamente, você pode inventar atividades em comum, que os aproximem, como colecionar coisas juntos ou combinar de assistirem a um mesmo jogo pela TV e depois se ligarem para comentar. |
| ... dialogar com a ex-mulher que dificulta a visitação do pai |
| O pai deve conversar com a ex, mas isso
nem sempre é fácil. Uma saída é mandar a ela um e-mail ou
carta com artigos sobre a importância da presença do pai no
desenvolvimento dos filhos. Outra idéia é sensibilizar a rede
de pessoas mais próximas a ela como, por exemplo, ex-sogros,
ex-cunhados, amigos em comum etc. A escola também pode ser um
mediador, assim como psicólogos e terapeutas de família. Se o diálogo não funcionar, o pai pode acionar a ex-mulher na justiça para que seja garantido seu direito de visitação. |
| ... aumentar o número de visitas ou dias em companhia do filho |
| Também vale a conversa com a ex ou a tentativa de convencê-la por meio de amigos, parentes ou pessoas influentes. Se não der certo, o pai pode requerer na justiça mais dias com o filho. No caso dos que têm apenas o direito a ver o filho em finais de semana alternados, é mais fácil de o juiz se sensibilizar. O processo pode levar mais de um ano, mas é possível obter uma liminar ampliando a visitação antecipadamente até ser dada a sentença. Mas, como qualquer outro desentendimento entre os pais, a disputa legal inevitavelmente trará mais sofrimento à criança. |
| Fontes: terapeuta de família Marilia Lohmann Couri e advogada de família Mônica Guazzelli |
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Eles podem ajudar você |
| - Associação de Pais e Mães Separados (Apase): www.apase.org.br |
| - Pai Legal: www.pailegal.net |
| - Associação Pais para Sempre: www.paisparasemprebrasil.org |
| - ParticiPais: www.participais.com.br |
| - Movimento Guarda Compartilhada Já: guardacompartilhada.vilabol.uol.com.br |
| - Direito de Família: www.direitodefamilia.com.br |
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Homens assumem a paternidade e não abrem mão desse direito (dever) depois da separação |
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Foto(s): Júlio Cordeiro, Agência RBS/ZH |
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Paulo Habl, da Pai Legal, vive com a filha Sophia, de 14 meses, do segundo casamento. Desde a separação, ele convive pouco com o filho mais velho |
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Foto(s): Arquivo Pessoal, Agência RBS/ZH |
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No acordo feito com a ex-mulher, Júlio Machado vê as filhas Roberta, sete anos, e Marcela, cinco, diariamente |
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Foto(s): Dulce Helfer, Agência RBS/ZH |