Revista Crescer - abril de 2003
A
criança tem capacidade de aceitar o divórcio dos pais. Sofre mais imaginando o
que não lhe é dito.
Tatiana
Bonumã
Em
2001, segundo o IBGE, cerca de 96.000 casais se separaram no Brasil, e 82% deles
tinham filhos. Ficaram traumatizados? Não. Eles sofrem, sim, mas a separação
dos pais não causa traumas na criança, segundo um estudo brasileiro que
acompanhou por oito anos famílias que passaram pela experiência. O que pode
afetar os filhos na hora da separação é a forma de os pais conduzirem o
problema ou a ausência de um deles após o rompimento. “Quando bem
encaminhada, a separação não traz prejuízo algum para o desenvolvimento
emocional e a vida social e escolar da criança. Ela consegue sair dessa sem seqüelas”,
assegura o psicólogo Evandro Luiz Silva, autor da pesquisa e perito na Vara de
Família de Florianópolis. Segundo ele, é importante os pais saberem disso,
pois têm tendência a se martirizar com o sofrimento que estariam impondo ao
filho. “Acham que a criança sofre como eles com a separação. Não é
verdade. Como ela vive os
acontecimentos de forma mais imediata, consegue se desligar da dor re administrá-la
com mais facilidade que o adulto”.
“Pais separados, portanto, não são sinônimo de filhos problemáticos. Acreditar nisso facilita uma das etapas mais difíceis da separação: o momento de contar para os filhos. “Eu estava decidida que queria o fim do casamento, mas só de pensar em falar para minhas filhas, meu estômago revirava”, lembra a dentista Ana Claudia do Vale, mãe de Luíza, 9 anos, e Lia, 6. Por isso, ela prolongou uma situação ruim. “Numa crise conjugal é impossível medir todas as palavras. A gente acaba soltando uma ofensa ou acusação na frente das crianças. Minhas filhas se ressentiam ao ouvir as brigas. Perguntavam se a gente ia se separar e ficavam visivelmente inseguras”, conta Ana Claudia. Quando, enfim, ela tomou coragem de falar, quase caiu da cadeira com a reação da filha mais velha. “Ela disse que já sabia, me abraçou e foi andar de bicicleta.” Estranho? Não para o psiquiatra Ivan Lemos. “A criança tem enorme capacidade de aceitar a verdade e muito potencial para o crescimento psicológico diante dos fatos.”
ANTENAS LIGADAS
Enquanto
os pais estão mergulhados em seus conflitos, não se dão conta de que os
filhos acompanham a crise: vêem a mãe choramingando, o pai chegando mais
tarde, ouvem discussões, sentem a mudança na relação do casal. “A criança
percebe tudo. Convém que os pais a informem até antes do rompimento, dizendo
que não estão se entendendo, mas que a amam”, sugere o psicólogo Silva.
Isso ajuda a criança a não se culpar – quanto menor ela é, mais egocêntrico
tende a ser seu pensamento, acreditando que tudo no mundo ocorre por sua causa.
“E também lhe dá a oportunidade de se acostumar com a idéia da separação,
o que evita choques na revelação”, diz Silva.
Quando os filhos são pequenos, há outras formas de conversar com eles. A assistente social Graziela Padovan, 42 anos, descobriu isso com a ajuda de uma terapeuta durante sua separação. “A situação estava feia, causando muita tensão em casa. Meu filho, Pedro, tinha apenas 3 anos e estava assustado, triste, chorava muito. A terapeuta me aconselhou a usar brincadeiras para lhe explicar a situação”, conta Graziela. Ela desenhava numa folha duas casas, e dizia que uma era do pai e a outra, dela e do filho. Montava casinhas de brinquedo e repetia o mesmo discurso. Ou criava historinhas nas quais a escola de Pedro era no meio das duas casas e ele visitava as duas. Tudo florido, com cores alegres e envolvendo atividades que o menino gostava. Depois da separação, Graziela também estreitou o convívio do filho com avós, tios e primos por orientação da terapeuta. “O pai foi morar em outra cidade e ele sentia sua falta. Nosso empenho, com as brincadeiras e visitas aos parentes, era fazer Pedro se sentir novamente seguro e confiante. Isso tudo suavizou sua dor. Ele não teve problemas na escola e cresceu com valores de família, amor e solidariedade”, afirma Graziela.
SILÊNCIO
É PIOR
Juntos
os pais encontram meios de como contar aos filhos sobre a separação. Mais do
que ninguém, conhecem as reações e os limites da criança para enfrentar
situações delicadas. Só não devem, reforça Evandro Silva, omitir da criança
o que está ocorrendo. “ O trauma surge do que não é dito. O silêncio dá
espaço para que os pequenos fantasiem, e a versão criada por eles pode ser
ainda mais dolorosa do que a real.” Foi o que se deu com a advogada Alessandra
Botelho, 30 anos. Ela e o marido decidiram afastar a filha Maria da crise que
estavam vivendo até que resolvessem a situação. “Para termos mais
privacidade, mandamos a Maria para a casa dos avós. Mas não entramos num
acordo e, quando ela voltou, não encontrou o pai em casa. Ele foi morar na casa
de seus pais”, conta Alessandra. Nem ela nem o marido, passando por momentos
de indefinição, abriram o jogo com a filha. “Sempre que o pai aparecia, ela
tinha esperança de que fosse ficar. Um dia, brincávamos juntas e ela soltou a
frase “O papai pode voltar para casa porque eu cuido da vovó quando for
grande”, recorda a mãe. A filha tinha encontrado um jeito de justificar a ausência
paterna. “Nesse momento, esclareci tudo para ela e foi um alívio. Acabei com
sua ilusão de que o pai voltaria, o que a fazia sofrer. Hoje está tranqüila,
aceita com naturalidade a situação” assegura Alessandra.
Para evitar confusões, o melhor é ser verdadeiro, simples e direto na hora de contar aos filhos sobre a separação. “O essencial é assegurar a eles nesse momento que não serão abandonados, que continuarão a ser amados”, ressalta o psiquiatra Ivan Lemos. Para ele, a criança não precisa dos pais morando na mesma casa. “O que ela necessita é de um pai e uma mãe agindo adequadamente em seus perspectivos papéis. É fundamental que ambos sejam igualmente responsáveis pelas necessidades afetivas e educacionais dos filhos”, afirma Lemos.
UMA MUDANÇA POR VEZ
Uma
vez revelada a história, a criança precisa ser preparada para a saída do pai
da casa da família, que é o mais comum de ocorrer. A principal dica dos
especialistas é que os filhos participem da organização dessa nova vida:
procurem apartamento com o pai, passeiem pelo novo bairro, ajudem a decorar o próprio
quarto na nova casa. A comerciante Luciana
Novaes, 28 anos, fez isso com o filho Igor, 3 anos. “Antes da separação ele
viu sua caminha sendo montada na nova casa e ajudou o pai a arrumar as coisas.
Foi entendendo melhor o que se desenrolava”, revela a mãe.
Para
o psicólogo Silva, essa é uma maneira saudável de a criança entrar em
contato com a nova realidade. “O que também ajuda é não fazê-la passar por
outras mudanças logo após a separação”, ele observa. Manter o filho na
mesma casa, na mesma escola e levando uma rotina similar a de antes é
reconfortante para ele. “Suas referências continuam intactas e ele se sente
mais seguro”, diz o psicólogo.
Já
instalados na nova rotina, é normal que os pequenos sintam um estresse
emocional, o processo de entrar em contato com a dor e superá-la. “Passam por
uma seqüência de sentimentos, que começa com o impacto da revelação, depois
a dúvida sobre a veracidade da separação, seguida da aceitação que os deixa
irritados ou agressivos, e finalmente vem a tristeza”, descreve a psicóloga
Ceres Alfes de Araújo, da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo.
Uma cena que Luciana viveu com o filho Ígor ilustra o fim dessa trajetória.
“Ele pegou um álbum de fotos, olhou o pai segurando-o no colo, soltou o álbum
e deitou na cama, triste. É um espoleta, mas nesse dia ficou por algum tempo
deitado, quieto, com uma carinha de choro. Senti que, definitivamente, ele havia
compreendido a situação”, conta Luciana.
Durante
esse processo, é normal que a criança fique manhosa, carente e até regrida um
pouco no comportamento para atrair o carinho e a atenção dos pais. “O Pedro
queria dormir todos os dias na minha cama. Deixei enquanto estava fragilizado e
depois tive de convencê-lo a retornar ao seu quarto, decorando-o como ele
gostara, com papel de parede, estrelas no teto e novos móveis”, conta
Graziela, que, com o artifício, conseguiu o que queria.
Mas
nenhum desses cuidados será realmente eficaz se os pais não respeitarem a
regra número 1: “O que mais abala uma criança
é ser usada como arma de combate entre os pais, ouvir um falando mal do outro
ou servir de pombo correio entre as disputas”, afirma Carlos bonato,
presidente nacional da Associação de Pais e Mães Separados (APASE) . Segundo
ele, pesquisas do Departamento de Estudos Sociais e Humanos do governo americano
indicam que, quando os filhos são privados dessa
guerra conjugal, têm 35 % a menos de possibilidade de manifestar
desajustes após a separação. Só que poupar a criança não significa aliená-la
da crise doméstica. Segundo os especialistas, é bom que os pais mostrem seus
sentimentos ao filho, pois ele se sente à vontade para revelar suas emoções.
Além disso, essa atenção costuma resultar em mais intimidade e presença com
a criança. Por isso, é comum o relato de que os filhos ganham novos pais após
a separação. “É natural”, diz a psicóloga Ceres. “Os conflitos
conjugais roubam energia e dedicação dos pais aos filhos. A separação pode
ser a garantia de que a criança receberá afeto, sem precisar participar da
hostilidade dentro de casa, o que leva a idéias negativas de família ou
casamento”, assegura Ceres.
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GUARDA
DE FILHOS O Novo Código Civil, em vigor desde janeiro, determina que a guarda dos filhos seja dada a quem tiver melhor condição de exercê-la. “É um avanço em benefício da criança”, define a advogada Sandra Regina Vilela, colaboradora do site Pai Legal. Ela explica que o código anterior via o casamento como indissolúvel e buscava um culpado para seu fim. A lei tendia a dar a guarda dos filhos ao cônjuge que não havia sido responsável pela ruptura e, em caso de ambos serem “culpados”, a mãe tinha mais possibilidade. “Agora a lei favorece o genitor que tiver melhor vinculação e convivência com a criança. O que se busca é que ela não sofra muito com a separação”, diz Sandra. |
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O
APOIO DA ESCOLA Informar a escola sobre a separação ajuda professores e orientadores a entender melhor a criança, caso ela apresente mudanças de comportamento, como tristeza ou agressividade. Mas os pais não devem esperar mais do que esse suporte da escola. “É um espaço do aluno, em que se trabalha com as experiências que ele traz num contexto pedagógico. Não é função da escola interferir no ambiente familiar, embora muitas vezes ela funcione como um alívio para a criança, que se envolve com outras atividades e esquece seus conflitos”, explica a psicóloga Elizabeth Dória Scatolin, uma das coordenadoras da educação infantil do colégio Vera Cruz, em São Paulo. |
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AJUDA PARA TODA FAMÍLIA Livros
para os filhos
1)-
O pai que era mãe, de Ruy Castro, Companhia das Letrinhas, R$
19,00 2)-
Dois de cada, Babette Cole, Ática, R$ 29,90 3)-
João tem duas casas, de Dominique di Saint Mars, Companhia das
Letrinhas, R$ 20,m00 4)-
A selva e o mar – Uma história de amor que se foi, Rubem
Alves, Paulus, R$ 11,00
Sites para os Pais
www.apase.com.br www.pailegal.net |