
Jornal
“A Tribuna” – Vitória – Es – 25/10/2002
EM NOME DO FILHO
Marcos Antonio de Almeida silva
Após a Segunda Guerra, com a ida dos homens para o campo de batalha e a conseqüente escassez de mão de obra masculina, mulheres ocuparam seus lugares no mercado de trabalho.
Não retornaram ao lar para desempenhar a mesma função de antes. Passaram a competir e iniciaram a trajetória de independência.
Se
antes tinha-se a idéia de que trabalho e maternidade eram incompatíveis com o
gênero feminino, o desafio enfrentado pela mulher provou que o conceito era
equivocado.
Ao
homem cabia a vida pública e à mulher a vida doméstica. Ela recebia educação
para ser boa esposa, dona de casa e que desse a luz a filhos saudáveis. Essa
era a vocação dela.
Com
o aprofundamento da modernidade no século XX, as relações sociais mudaram e
mudou a mulher, que deixou de ser a rainha do lar.
O
controle e dominação dos conflitos da casa se
dava pela
autoridade masculina e/ou pela subserviência da mulher. Com as mudanças, o
homem deixou de ser o único provedor e passou a dividir com a companheira a
responsabilidade de pagar
contas.
Como
conseqüência, ela construiu um novo sentido para a vida e redefiniu valores.
Surgiu, aos poucos, um novo ser, que passou a questionar e manifestar desejos e
necessidades.
O
casamento para muitos deixou de ser orientado pela ética da moral e pela convicção
religiosa para se dar pela atração e amor. A expressão que ajuda a compor o
rito do casamento “até que a morte os separe”, hoje, para muitos, não
opera o mesmo efeito.
É
crescente o número de divórcios que trazem profunda alteração na estrutura
da família nuclear, concebida pelas figuras do pai e da mãe convivendo sob o
mesmo teto.
Ora,
com o rompimento do casamento, filhos passaram a ser educados e criados pela mãe,
que não dispõe mais do mesmo tempo.
Precisando
trabalhar e dividir tarefas domésticas, a saída foi deixar as crianças com os
avós, com a doméstica ou em creches, quando não em casa sozinhos.
O
pai, até então ausente, começou a manifestar o desejo de dividir com a mãe o
papel. É um fenômeno social o interesse de homens divorciados
estarem mais próximo dos filhos, deixando de ser só seres biológicos e
provedores.
O
fenômeno se deu porque mães tiveram que sair de casa para defender
seus interesses. Como os pais não são mais os únicos responsáveis
pela manutenção da prole, dispõem hoje
de mais
tempo para
ficar com os filhos
e construir afeto
e amor, missão antes só da mãe.
É
importante que assim seja. Pai e mãe norteiam a vida dos filhos. Pode haver
outros fatores que ajudem a estruturar suas identidades, mas nada
de igual importância do que a presença diária dos pais.
Tornar
um filho órfão pelo divórcio traz conseqüências imprevisíveis. Gravidez
precoce, abandono do lar e da escola, além do consumo de drogas, são algumas
das dificuldades.
Ainda
assim há gente insistindo no erro de se ausentar, porque a separação trouxe
rancores. Como se filhos fossem culpados pela imaturidade dos adultos.
Muitas
vezes os filhos vão procurar visibilidade, auto-conceito e o sentido de
vida fora
de casa, porque de alguma forma isso lhes foi negado ou negligenciado na família.
Da
mesma forma que um sistema imunológico saudável não é a garantia de que
filhos nunca terão doença, também a presença dos pais não é a garantia de
que não terão dificuldades, desafios, mas os tornam mais resistentes perante
as adversidades.
Na
hora da separação, ressentimento nenhum justifica entregar o filho a uma sorte
incerta, extraindo dele a figura do pai ou da mãe. Aqueles que, por negligência
ou desafeto, se ausentam da educação dos filhos, vão chorar as conseqüências.
Bom será se assumirem a culpa.
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Marcos
António de Almeida Silva é representante da Associação
de Pais e Mães Separados no Espírito Santo marcosantonio.a.s@terra.com.br tel: 3071-1061 |