A TRIBUNA – 30.03.2002
Vitória
- Espírito Santo
Parte 2
REPORTAGEM ESPECIAL
ASSOCIAÇÃO
BUSCA UM LÍDER NO ESTADO
O
objetivo é criar um espaço para que homens separados encontrem orientação
para buscar seus direitos
Em
vários pontos do País já existem unidades da Associação de Pais Separados (Apase),
lutando por causas ligadas à guarda dos filhos, principalmente para permitir
que os homens tenham os mesmos direitos que as mulheres nesse quesito. No
Estado, eles buscam um líder para fundar uma filial da entidade.
"O
nosso propósito é erradicar a idéia de que pai não pode criar filho. A
guarda compartilhada é uma boa proposta, mas nós temos vários outros projetos
dentro da nossa linha de atuação e é importante expandir o trabalho para
outros locais onde ainda não há uma de nossas unidades", afirmou o
presidente nacional da Apase, Carlos Roberto Bonato”.
A
inclusão do termo "guarda compartilhada" no novo Código Civil, um
dos propósitos da Apase, é ratificada pela advogada Sônia Mello. Ela disse
que, a partir do momento que a questão estiver prevista em lei, passa a ser
direito.
"Hoje,
alguns juízes até concedem, mas depende de interpretação. Com a mudança,
vai facilitar a vida dos pais", afirmou.
LIDERANÇA
Para
criar uma Apase, a liderança não tem que ser, necessariamente, uma pessoa
descasada. Tampouco precisa seguir um modelo estabelecido de atuação.
Bonato
disse que em Porto Alegre (RS), por exemplo, o trabalho dos integrantes da Apase
é manter contatos internacionais sobre questões relacionadas à guarda de
filhos.
Em
Curitiba (PR), onde as atividades estão sendo iniciadas agora, um grupo de
juristas estuda teses sobre o assunto. "Não precisa ser um líder geral,
mas deve trabalhar suas habilidades pela garantia de condições de igualdade
para pais e mães", explicou.
Foi
a experiência pessoal que fez com que
Euclydes de Souza Júnior decidisse se dedicar ao projeto e, agora, é o
presidente da Apase de Curitiba.
Quando
se separou, a ex-mulher saiu do Rio de Janeiro e foi morar na capital paranaense
com as duas filhas. A princípio, Euclydes Júnior não pôde se mudar, porém,
comprou um apartamento em Curitiba para onde viajava quinzenalmente e, então,
recebia as filhas em casa.
"Agora,
quando não há condição econômica de se fazer isso, a situação de um dos cônjuges
fica muito complicada porque costuma limitar-se a um mero visitante na casa do
outro. Essa relação é muito difícil para
pais e filhos e é isso que precisamos mudar. Lutamos pelo direito de mães e
pais conseguirem manter um vínculo familiar,
mesmo com a separação”.
PSICÓLOGA DEFENDE AVALIAÇÃO
A decisão judicial sobre a guarda de um filho deve levar em consideração o contexto familiar que melhor permitirá à criança ou ao adolescente um desenvolvimento que não comprometa seu futuro.
A
avaliação é da psicanalista Maria Gascard, afirmando, contudo, que é uma
decisão difícil de ser tomada. Em tese, segundo ela, uma criança que está
sendo amamentada deveria ficar com a mãe.
"Mas
se essa mulher tiver depressão pós-parto? Será o leite o suficiente para
determinar que ela fique com o filho? Uma criança precisa mais do que a comida.
São necessários carinho, atenção e um ambiente saudável para crescer",
argumentou.
A
psicanalista frisou que não existe um tipo de "separação ideal"
para os filhos. Porém, os pais devem fazer um trato a fim de não misturar
questões pessoais, seja com quem quer que fique a guarda das crianças. Isso
quer dizer não deixar o filho se sentir como responsável pela separação ou
motivador de briga entre o casal.
"Esse
tempo de infância e adolescência passa muito rápido. É nele que vai se
constituindo um adulto. Se for um período tumultuado, isso vai se refletir também
no convívio em sociedade", ressaltou a psicanalista.
Marisa
destacou, também, que é importante para os filhos identificarem a casa de seus
pais como sua, tendo, dentro da realidade de cada família, um espaço que seja
só da criança. A psicanalista disse, ainda, que o diálogo é fundamental num
momento de separação, o que implica, inclusive, pais ouvindo os filhos.
De
qualquer maneira, não é para crianças e adolescentes serem superprotegidos,
passando a ser tratados como “coitadinhos"
e com todas as vontades atendidas, porque essa atitude protecionista também
prejudica o desenvolvimento.
Apesar
de não se tratar de um processo de separação, Marisa destacou a decisão
judicial que beneficiou Maria Eugenia Vieira, companheira Cássia Elder,
permitindo que ficasse com a guarda do filho da cantora, Francisco Eller.
"Nesse
caso, como deve ser em todos os outros, foi levado em conta o bem-estar da criança.
O menino não tinha convivência com o avô - que reclamava a guarda - e foi o
melhor para ele", ponderou.
Com
o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente,
há 12 anos, algumas mudanças começam a ser implementadas no Poder Judiciário.
Prova disso foi a decisão inédita de conceder a guarda de Francisco Eller, o
Chicão, a Maria Eugênia Vieira, companheira da mãe do garoto, a cantora Cássia
Eller, que morreu no final de 2001.
Pelo
Estatuto, o foco de qualquer separação na família passou a ser os interesses
dos menores. Convivendo com a cantora há 14 anos, Eugênia partilhava da criação
de Chicão desde o nascimento. Os sentimentos e a estabilidade emocional do
garoto foram a prioridade.
A
Justiça, então, decidiu que para Chicão seria melhor permanecer com Maria Eugênia,
independentemente de sua opção sexual. O único a não gostar da história foi
o avô do garoto, o militar aposentado Altair Eller.
Contrariando
o próprio pai, Cláudia, uma das irmãs de Cássia, não se conforma com a
atitude que o militar vem apresentando e já concedeu diversas entrevistas nas
quais foi incisiva:
“Ele
tem 16 filhos. Cinco com minha mãe e outros 12. Se ele não cuida nem dos dele,
como agora quer cuidar do filho dos outros?”, questionou, numa reportagem da
revista ÏstoÉ”.
“Como
ainda não discutimos na Justiça a guarda das minhas filhas, eu dependo do
humor da minha ex-mulher para vê-las. Às
vezes, por motivos que desconheço, ela simplesmente sai de casa com as crianças,
sem me avisar, em dias de visita que eu já havia marcado”.
Essa
é uma situação complicada, que me faz pensar em pedir a guarda definitiva,
apesar de ter um horário de trabalho um pouco conturbado. Gostaria de poder
compartilhar de mais de mais tempo com elas, mas nem sempre minha ex-mulher
permite.
Eu
sei que há muita interferência da família dela, principalmente do irmão e do
pai, e que isso pode estar influenciando suas decisões. Hoje (ontem), passei
menos de uma hora com as meninas, mas, se pudesse, teria ficado mais.
Espero
que essa nova regulamentação da Justiça — o Código Civil - dê mais
chances aos pais, já que está prevista que
a guarda deve ficar com quem tem mais condições de criar os filhos e isso não
se refere só a ter mais dinheiro, mas permitir um ambiente mais agradável para
as crianças viverem.
Eu
já li reportagens falando, inclusive, que há uma tendência de alguns juízes
de avaliar esse perfil dos pais, antes mesmo do Código entrar em vigor, mas
acho que infelizmente essa ainda não é uma realidade no Espírito Santo”.
(Depoimento do empresário M. pai de duas meninas)
Quando
o empresário P. se separou, a guarda de seu filho, hoje com 14 anos, ficou com
a ex-mulher. Há pouco mais de dois anos, porém, o adolescente decidiu ir morar
com o pai, com quem vive até hoje.
A
decisão partiu de um pedido feito ao pai, que imediatamente concordou com a
vontade do filho de dividirem o mesmo teto. Atualmente, eles compartilham a vida
familiar com a nova mulher de P. e o filho dela.
O
empresário disse que não precisou levar à Justiça o pedido de guarda e
acredita que o filho buscou nele uma relação com a qual se identificava melhor
e da qual recebe mais carinho. “Ele até chama a minha mulher de mãe”,
revelou P.
Entretanto,
com a idade que decidiu ir morar com o pai, o rapaz teria direito de, caso
tivesse ocorrido uma audiência judicial, manifestar quais eram seus interesses.
O
relacionamento entre o empresário e o adolescente, segundo P., é tão bom e
aberto que, desde o início, ele deixou claro que, se um dia o filho optasse por
voltar a morar com a mãe, não seriam feitas restrições. O empresário
garantiu que é a vontade dele o que conta para que o filho viva feliz.
Apesar da mudança de endereço do rapaz ter acontecido sem muitos conflitos, P. preferiu que seu nome e o do filho não fossem divulgados para evitar que a ex-mulher criasse problemas a ponto de exigir de volta a guarda do adolescente à Justiça, acusando-o de expor o filho à imprensa.