Matéria publicada no jornal Zero Hora, Porto Alegre, RS, edição de 16.08.2001.
EM
NOME DOS PAIS E DOS FILHOS
Tânia
M. Vanoni Polanczyk
Terapêuta
de Casal e Família
Crescemos
acreditando em verdades absolutas, frutos inquestionáveis das leis da vida.
Tais crenças, travestidas em teorias científicas, geram posicionamentos
distorcidos que dificultam e até impossibilitam a adoção de postura dialética
frente à realidade social e às condutas individuais. As idéias preconcebidas,
que interpretam o mundo e tentam moldá-lo à sua medida, certamente tranqüilizam
e oferecem segurança, mas inviabilizam o surgimento da dúvida, que mobiliza a
criatividade. Ao mesmo tempo, mutilam a realidade com uma violência sutil, que
esteriliza as ações e esvazia a vida dos indivíduos.
Não é fácil perceber, mas crença e violência caminham lado a lado. A
visão beatificada da mulher como esposa-mãe e do homem como distante provedor
da família, por exemplo, por demasiado tempo impediu e até hoje dificulta que
ambos qualifiquem seus outros atributos, desempenhem novos papéis e passem da
condição de função à de ser humano completo. Tem sido grande o esforço das
mulheres para romper o confinamento que lhes foi imposto pela interpretação
social da sua identidade como exclusivamente materna, bem como o de muitos
homens para afastarem-se dos caminhos que lhes foram culturalmente determinados
e revestir suas vidas com escolhas individuais menos convencionais e mais
gratificantes.
Falta a cada um de nós, que formamos a estrutura social, revisar nossos
preconceitos, mesmo que este ato importe em experimentar o caos – e obter uma
vivência interior profunda de ordem. Enquanto isso não acontece, vamos nos
apoiando nas velhas idéias. Acreditamos, assim, que não existe maldade na
sociedade quando delega especialmente à mulher o papel de cuidadora da prole e
ao homem o de sustentá-la. Esta atitude encontra amparo na crença de que a
maternidade é superior à paternidade, portanto, mães têm direito aos filhos
e pais têm o dever de mantê-los. Tampouco existe maldade no esquecimento da
legislação, que garante igualdade a homens e mulheres, nem na falta de atenção
aos especialistas em saúde mental, que alardeiam
serem as
figuras materna
e paterna
– ambas,
portanto – fundamentais para o desenvolvimento sadio dos filhos.
Por ignorância ou, quem sabe, por temor à incerteza, não questionamos nossos conceitos, ao contrário, tendemos a continuar acreditando no que cremos. Com relação à questão dos papéis masculino e feminino, parece haver uma recusa das instituições – que nas suas ações manifestam o pensamento da sociedade – em perceber que a imagem do gênero, assim como a de muitas outras, é constituída sobre uma pequena seleção de fatos verdadeiros e falsos, que se expandem com grandeza desmesurada e forma uma estampa que não corresponde à humanidade da mulher e do homem. Explica-se, desta forma, o fato corriqueiro nas situações de separação e divórcio: na imensa maioria dos casos, é dada à mulher, por uma questão de gênero, a guarda dos filhos. Os homens, mesmo que aptos e desejosos de manterem os filhos consigo, também por uma questão de gênero, têm negado este direito que, em tese, lhes é assegurado.
Inúmeras investigações cientificamente embasadas atestam – e minha
experiência com adolescentes infratores no Judiciário corrobora – que os
riscos de uma inserção social não-exitosa são muito maiores para os jovens
que cresceram sem pai do que para os que usufruiram a convivência paterna. A
ausência do pai, por negligência ou impedimento, retira do homem a paternidade
que, tanto quanto a maternidade, é uma das mais gratificantes vivências, e o
transforma em um objeto, em geral, de consumo, um grande bolso, que o diminui e
apequena seus filhos.
Fernando Pessoa, em O Eu Profundo e Outros Eus, mobiliza nossos sentimentos de compaixão por todos os filhos sem pai e, especialmente pelo pequeno Jesus, quando diz: “Nem sequer o deixaram ter pai e mãe como as outras crianças; seu pai eram duas pessoas: um velho chamado José, que era carpinteiro e não era pai dele; o outro era uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo porque não era do mundo, nem era pomba.