Matéria publicada no Jornal do Brasil do dia
08 de março de 2001
PAI PODE TER A GUARDA?
E
xclusivamente
em casos extremos. Mas afinal, será que é preciso chegar até este ponto?
Expor uma criança a situações de abuso e violência até que a justiça
resolva quebrar o tabu que fez da mãe alguém imaculada e intocável?
Isto é o que tem
acontecido diariamente nas varas de família do Rio de Janeiro. Para uma mulher
deixar de ter a guarda de uma criança é necessário que ela for publicamente a
encarnação da escória. Este aspecto parece ser um consenso entre a maioria
dos advogados desta cidade quando são consultados por homens que desejam cuidar
de seus filhos(as) depois de uma separação.
Diariamente encontramos no
consultório mulheres e homens filhos de mães coniventes ou autoras de abuso e
violência durante a infância. Relatos que permanecem como segredos, guardados
durante anos sob o bastião do terror. Depois de terem suas vidas marcadas e a
inocência traída, estas crianças crescem inseguras e temerosas, sinalizando
para nós um sofrimento profundo gerado por aqueles a quem as leis tratam como
imaculadas e inquestionáveis.
É bom lembrar que sob
pretexto de serem representantes da doçura, da delicadeza e da maciez, o
feminino nesta cultura também se revela em Medéia e Jocasta. A violência da
mulher, diferente da do homem se exerce na invisibilidade mas produz danos nem
sempre vistos a olho nu. Quando um homem age violentamente, o faz pela força física
e o dano causado pode ser medido. Mas admitir que uma dona de casa, uma
executiva, uma professora, uma doméstica ou uma mãe possa ser violenta ainda
é um tabu. Se uma mulher bate ou violenta uma criança isto é considerado
sinal de correção, firmeza e educação. A sociedade é permissiva para com
esta atitude, mesmo que os dados disponíveis na ABRAPIA nos indiquem que no cenário
doméstico a mulher é o principal agressor da criança.
E as varas de família,
por que será que não consideram estes dados quando avaliam o pedido de guarda
feito por um homem ?
O que será que acontece
dentro do coração daqueles que representam a justiça que mesmo diante de
tantos dados sobre violência contra crianças, ainda se colocam impassíveis
diante do pedido de guarda feito por um homem? Parece que o que os deixa
temerosos é o fato de poderem quebrar uma corrente psico-cultural que define o
filho como um objeto da mãe, objeto este que ela pode manipular e carrregar
consigo como um patrimônio. Ou será que alguns dos operadores do direito, que
já foram crianças, podem ter sofrido algum tipo de violência que os deixou
temerosos o suficiente para perpetuarem esta cadeia perversa se valendo da máscara
da lei?
Enfim, enquanto a justiça
não revê suas atitudes continuamos vendo meninas e meninos ouvindo que "tapinha
não dói", ou ainda "tá dominado" (...) " mexe, enfia,
remexe" como slogans que refletem o projeto de uma sociedade omissa,
comprometida com a popularização e divulgação de uma determinada
sensualidade brasileira "moderna".
Esta cultura emancipada,
sem censura, liberada e politicamente correta impôs aos homens um certo
constrangimento quando estes desejam exercer seus direitos. Esta mesma sociedade
vem banalizando a masculinidade e transformado-a em algo " de direita"
, retrógrada e ultrapassada mantendo o preceito de que os filhos(as) devem
ficar preferencial e exclusivamente sob os cuidados da mãe. E talvez esta
atitude esteja correta, afinal deve haver um propósito em tudo isto: nos
convencer que zelo mudou de nome e se transformou na indústria da bunda.
Sócrates Nolasco, psicoterapeuta, prof. ECO/
UFRJ
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