Hoje, dia 25 de abril, foi escolhido para ser o Dia
Internacional de Conscientização sobre a Alienação Parental,
um tema que vem crescendo tanto no meio jurídico quanto na
sociedade de uma forma geral, pois é crescente e seus males
são destrutivos para as famílias. Países como o Brasil,
Chile, Argentina, México, EUA, Espanha, Portugal , Suíça,
Austrália e Canadá farão manifestações contra esse mal na
data de hoje.
O assunto está encontrando terreno fértil para a sua
disseminação. Pelo menos é o que sinto na minha cidade de
Rondonópolis. No último mês tive informação que mais de 5
alunos do curso de Direito das 2 faculdades daqui estarão
defendendo monografia sobre o tema Alienação Parental.
Desses 5, já tive contato com 3, e desses 3, 2 vivem a
alienação parental. Um desses acadêmicos, uma mãe, conhece
as malvadezas da alienação há mais de 20 anos, danosa,
destrutiva e que deixa feridas na alma de cicatrização lenta
e demorada, mas só recentemente descobriu que esse mal tem
nome. Agora, mais do que nunca, além de conhecer o seu nome,
sabe da necessidade de lutar para combatê-la. Ela sabe que a
alienação é como uma flecha envenenada que mata aos poucos…
“mata” o afeto, a afinidade e o amor entre pais e filhos
caso não combatida.
O outro teve contato recentíssimo com ela. Neste, as feridas
tinham acabado de serem abertas, ainda sangravam, a dor
estava insuportável. Estava difícil combatê-la, pois vinha
de lá de dentro, vinha da alma. Foi de encontro a ele e
quase o jogou ao chão. A sorte foi que encontrou uma
professora no seu curso que já conhecia o tema, lhe
orientou, o acalmou e no final indicou que me procurasse. E
assim foi feito. Unimos as nossas forças de excelentes e
invejáveis pais e consegui aprumá-lo. Entendi a sua dor.
Compartilhei com ele. Conheço cada artimanha da alienação e
do alienador, conheço até mesmo a frequência da sua
respiração. O pior, meus caros, é que a mais nova vítima
deste mal que conheci nessas últimas horas é tão pequenino,
1 ano e 15 dias de vida, que não teve tempo ainda de
aprender os seus primeiros passos e nem balbuciar as suas
primeiras palavras, mas já topou de frente a desumana
alienação, que já está tentando arrancar-lhe a dignidade
primordial de qualquer serzinho indefeso que vem ao mundo -
que é o direito de conviver com as duas pessoas que o gerou
- seu pai e sua mãe. Lamentável sonegar de ser tão indefeso
o direito a convivência materna ou paterna. Isso é começar
arrancando-lhe a dignidade humana que reza o art. 227 da
Carta Magna. Essa criança ainda não anda e não fala, mais já
ama, e com certeza reconhece e ama tanto o seu pai quanto
a sua mãe. O seu sorriso com os primeiros dentinhos e o seus
braços estendidos com suas mãos gordinhas cheio de dobrinhas
demonstram isso. Nossos filhos têm o direito de amar e serem
amados, sem distinção, por ambos os genitores, além de tios,
avós e primos dos dois lados. Isso significa convivência
familiar ampla. Isso significa ler, conhecer e respeitar o
art. 21 do ECA.
Animei também este pai mostrando a confiança num Judiciário
cada vez mais contemporâneo, atento às mudanças e aos
anseios da coletividade, dizendo ainda que existem muitas
Marias Berenice e muitas Nancys Andrighi em todas as esferas
do Judiciário brasileiro, cercados por profissionais de
áreas afins que se preparam cada vez mais.
Enfim, falei pra esse pai não desanimar, pois eu via ali na
sua mão uma arma poderosíssima para lutar - o amor e o afeto
pelo filho. Essa eu sei o quão é poderosa e capaz de
prevalecer sobre os males da alienação, bastando ter
paciência, serenidade e sempre agir nos momentos corretos. E
ainda disse que infelizmente muitos Seans Goldman ainda
virão, mas que felizmente muitos Davids estarão surgindo dia
pós dia para despir a alienação parental de todos os seus
ornamentos venenosos e impiedosos.
Agora, saindo um pouco da minha singela realidade vou me
atrever a chegar a mais alta Corte do país. As artimanhas da
alienação parental foram abordadas pelo renomado jurista e
ex-ministro da Justiça Saulo Ramos em seu famoso livro
“Código da Vida”. Obviamente à época que se deu o fato, há
mais de 20 anos, no tempo das fitas k-7, o termo alienação
parental ainda não existia. A experiência vivida pelo então
advogado Saulo Ramos norteou a realização deste livro. Ele
se baseou na história real de um pai que foi acusado de
praticar atos libidinosos contra seus 2 filhos, um de 9 e
uma de 7 anos. E o pior, a acusadora, sua ex-mulher, tinha
fitas gravadas onde as próprias crianças relatavam os fatos…
que prova cruel… tudo farsa… essa mãe sofria nada mais nada
menos do que esquizofrenia paranóica, conforme mostraram os
laudos psiquiátricos…Leitura interessante principalmente
para os acadêmicos de Direito.
O juiz de São Paulo que julgou à época o processo contra
esse pai, diga-se de passagem de forma brilhante e humana,
ainda está vivo, e mais vivo do que nunca, ele se chama
Antônio Cezar Peluzo, e há dois dias tomou posse como
presidente do STF. Próximo ao final do livro, Saulo Ramos
escreveu referindo a leitura da sentença do juiz: “Chamou a
atenção para que os pais tudo fizessem, a fim de que as
crianças se sentissem amadas e, assim, amassem seus pais, em
vez de temê-los. Citou São Jerônimo em latim: amare filorum,
temere servorum est (amar é próprio dos filhos, temer é dos
escravos). Observou que, mesmo no caso de separação dos
pais, a concepção de família não deve ser banida do conceito
sentimental dos filhos. Os adultos precisam saber lidar com
isso. A realidade de uma situação inevitável não justifica a
destruição de um ideal para a vida em formação de jovens e
adolescentes. Sem isso não podemos nos considerar
civilizados”.
Finalizo, conclamando pais e mães a me ajudarem a carregar
essa bandeira de luta antialienação parental e pró igualdade
parental, a qual levantei há 1 ano, objetivando dias
melhores para as nossas proles. Deixo como recado para
reflexão e ao mesmo tempo mostrando a atenção que devemos
ter com nossos filhos, as últimas palavras do último
discurso da sábia e experiente Dra. Zilda Arns Neumann,
médica pediátrica e fundadora e coordenadora da Pastoral da
Criança Internacional, pouco antes de ser vítima do
terremoto no Haiti, que disse: “Como os pássaros, que cuidam
de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas
montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais
perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um
bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e
protegê-los”.
(*) Érico Gundim de Morais é médico veterinário em
Rondonópolis, estudioso do tema e um defensor dos direitos
de filhos de pais e mães separados.